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Entrevistas

Rui Nunes: “Toda a gente sabe que a indústria farmacêutica, o governo e o Infarmed são hipócritas até não poder mais”

Laura Ramos

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Rui Nunes, Pneumologista - Foto: Nuno Frederico | Cannadouro Magazine

Médico Pneumologista no Centro Hospitalar de Tondela Viseu, onde é chefe de serviço, Rui Nunes descobriu, há cerca de dois anos, que o CBD (Canabidiol) poderia ajudar na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) do seu filho Nuno, de 28 anos.

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição #2 da Cannadouro Magazine (em papel). 

Rui Dias Nunes, 61 anos, nasceu em Santa Comba Dão, mas foi ainda criança para o Brasil, onde cresceu e tirou o curso de Medicina, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Casado desde 1988 com Martha Regina, também Médica, Rui Nunes tem dois filhos e regressou a Portugal em 1993, pouco tempo depois de nascer o mais velho, Nuno Fernando, agora com 28 anos, e diagnosticado desde os dois com Autismo.

Apesar de não ter qualquer conhecimento sobre os benefícios da canábis e de a maior parte dos colegas e familiares não se terem mostrado muito favoráveis, Rui Nunes resolveu arriscar. Afinal, já tinha experimentado tanta coisa, estimulação neurossensorial, hipoterapia, fonoaudiologia, terapia com golfinhos, natação, ginásio, corticoterapia e vários medicamentos. Com o apoio de dois ex-colegas de faculdade começou a administrar óleo de CBD ao filho. Nuno melhorou consideravelmente, mas Rui enfrenta agora as dificuldades de acesso ao tratamento com canabinóides.

Nuno foi diagnosticado com Autismo aos dois anos e desde então tentou várias terapias

Quando é que soube que o seu filho sofria de Autismo e como tentaram tratar a doença?
O Nuno Fernando tem o diagnóstico de Autismo desde os 2 anos, tendo já sido submetido a várias terapias e vários medicamentos. Está agora a frequentar um Centro de Actividades Ocupacionais e com terapêutica farmacológica, tendo sido associado ao seu tratamento o CBD há aproximadamente 2 anos.

Que melhorias notou no Nuno depois de lhe administrar o CBD?
Houve melhorias em termos da afectividade, da necessidade de estar perto do pai e da mãe, porque ele era muito arredio. Habituou-se mais à praia, por exemplo, e a senhora que nos ajuda a tratar dele notou que ele estava com menos medo da água e com mais interacção com o meio ambiente. Não ficou a 100%, mas eu noto melhorias a vários níveis. O grande problema é que nós só temos acesso ao CBD de determinadas origens.

E como faz para obter o CBD?
Eu agora consigo através de uma loja de canábis, mas costumava mandar vir de uma empresa de Inglaterra. O problema é que muitas vezes ficava preso na Alfândega, era muito difícil, às vezes demorava duas ou três semanas a conseguir que ficasse disponível. Já encomendei em Itália e em Espanha, mas o único que tenho mais facilidade de aceder é numa loja de canábis, mas não é full spectrum. Gostava de ter acesso a outro tipo de canabinóides e a um bom óleo de espectro completo, mas ainda não sei onde o encontrar. 

Quando é que ouviu falar em CBD pela primeira vez?
Foi uma amiga minha da faculdade, que sabia dessa utilização no Brasil. Ela veio a Portugal há uns 2 anos e disse-me que um colega nosso, Neuropediatra, utilizava o canabidiol em crianças autistas e com epilepsia. Entrei em contacto com esse nosso colega, que é médico em São Paulo, e foi, portanto, através dos dois que eu soube como usar o CBD. Mas o problema é que aqui em Portugal não há muita facilidade, porque o Infarmed coloca muitos entraves. 

Nuno tem actualmente 28 anos. Aqui com os pais, os médicos Rui Nunes e Martha Regina

O acesso é difícil?
Sim, o que eu acho uma grande hipocrisia, porque nós temos empresas em Portugal que cultivam a canábis, fazem produtos e exportam para vários países, enquanto que nós aqui ficamos restritos. Por um lado permitem que se exporte para outros países, mas por outro não permitem que as pessoas em Portugal tenham acesso a estes produtos.

Sabia que já está disponível um produto para prescrição?
Sim, mas eu não sei se abrange a parte do Autismo ou não. Eu vi que uma empresa multinacional conseguiu recentemente autorização para colocar um produto nas farmácias portuguesas, mas não sei de que forma pode ser utilizado nem o que nós precisamos para ter acesso: quais vão ser as restrições, quais vão ser os critérios para ter acesso a esse medicamento ou se vai haver alguma coisa disponível em termos de espectro total que possa ajudar os nossos filhos.  

E como é que vê essa questão enquanto Médico?
Também não tenho formação, por exemplo, para prescrever canábis a outros pacientes. Eu tenho um sobrinho que é Psiquiatra e ele diz que existem muitas reticências, principalmente no ramo da Psiquiatria, e ninguém tem conhecimento a respeito desta terapia, ninguém usou cá em Portugal nem sabe como usar. Isto já é uma coisa rotineira em Israel, no Brasil, e cá em Portugal ainda é tudo muito fechado, é tudo muito secreto. Estamos atrasados! Mesmo no Brasil há associações que trabalham com isso, têm que pedir autorizações, mas existe e é conhecido. Cá temos uma série de entraves, o que é caricato, porque o problema maior é com o THC, não com o CBD. A nível do Autismo, o que o meu colega Neuropediatra me diz é que as doses de THC poderiam ser até um pouco mais altas do que aquelas que o CBD tem habitualmente, porque não tem problema nenhum. O perfil de segurança é elevado e não causa dependência, mas… eu acho que deveriam proibir era o tabaco!

E o álcool.
E o álcool, não é, se for assim! Na minha área de especialidade o tabaco já causou danos sérios à saúde de muitas pessoas, problemas económicos e na família. Deviam preocupar-se mais com estas coisas. Enquanto Pneumologista vejo todos os dias pacientes com sérios problemas por causa da dependência do tabaco.

Nuno com a irmã, após uma sessão de hipoterapia

Tem muitos pacientes com problemas por causa de tabaco?
Inúmeros! Eu faço uma consulta só sobre cessação tabágica e digo aos meus doentes que o tabaco é uma droga, como o álcool, como a cocaína, que causa dependência, e tenho muito mais gente com outros problemas por causa do tabaco, seja cancro, sejam derrames cerebrais ou enfartes. Muitas das pessoas que vêm à minha consulta não conseguem ver-se livres do tabaco, porque têm uma dependência enorme, e isso é um problema muito maior do que propriamente uma liberação do CBD em casos específicos, como a Epilepsia ou o Autismo. O meu filho já usa o CBD há 2 anos e não vejo quaisquer efeitos colaterais. E mesmo que tivesse uma maior concentração de THC também acredito que não seria por aí. Se houvesse controlo, acompanhamento por parte da Psiquiatria ou Pediatras que se interessassem por isto, certamente não haveria tantos problemas. Mas eu sei que isso é difícil, porque até eu mesmo, no início, fiquei reticente, mas aí é apenas uma questão de as pessoas procurarem abrir mais os olhos e a perspectivar as coisas de forma diferente. E estudar, claro.

Não sei se sabe, mas o CBD também já está a ser utilizado com sucesso no tratamento de dependências de álcool, medicamentos e tabaco.
Por acaso sobre o tabaco não sabia, se me puder enviar alguns estudos agradeço.

Sim, claro. Algumas pessoas também deixam de fumar tabaco quando começam a fumar ou a vaporizar apenas flores de CBD. Na loja onde compra o CBD do Nuno certamente encontram-se também estas flores à venda.
Sim, estas lojas vendem várias coisas, incluindo flores, chás, chocolates e rebuçados.

Que coisas descobriu a nível clínico sobre o CBD no Autismo?
No caso do Nuno eu actuo mais como um pai e raramente como um cientista ou como um Médico. Mas pelo que vi ajuda muito em termos de comportamento, socialização e dependendo de cada caso há um ganho muito grande ao nível da fala, mas no dia-a-dia do meu filho o que eu noto mais é a parte social e a parte da interacção. Ele é um bocado arredio e o que eu procuro é que ele esteja mais tranquilo e mais participativo. O CBD tem bons resultados a este nível.

A canábis medicinal foi aprovada em 2018 e na lei está prevista a formação dos profissionais de saúde. Já teve alguma formação nesta área?
Não, nenhuma. Mas eu acho que os Médicos deviam ter conhecimento disto. Devia haver uma formação específica nesta área, que talvez ajudasse até a quebrar barreiras e o estigma. Deviam preocupar-se, porque a nível mundial cada vez mais crianças são diagnosticadas com Autismo e acho que seria uma boa abordagem para as empresas a esse nível. O que há de pessoas a necessitar de uma abordagem terapêutica diferenciada é enorme, mas infelizmente sabemos que a indústria farmacêutica funciona muito com lucros. Veja como foi fácil encontrar a vacina da Covid-19, em menos de um ano resolveram a questão.

Quanto é que gasta mensalmente para obter o CBD do seu filho?
O meu filho tomou inicialmente um óleo importado de Inglaterra, indicado pelo meu amigo Neuropediatra, de espectro total, mas nem toda a gente pode pagar 120 libras por um frasco de CBD com 10ml. Mas além disso, o grande problema é que eu ficava sempre na ansiedade se ia receber ou não. Mandar vir de outro país não é a mesma coisa que comprar na loja, há sempre o risco de a encomenda ficar presa na Alfândega.

E esses 10ml davam para quanto tempo?
Depende da dose, claro, mas eu com o meu filho fui aumentando e chegou a uma altura em que estava a fazer 300mg por dia, por isso dava para cerca de oito dias, mais ou menos.

Os cavalos e a hipoterapia foram algumas das terapias que os pais de Nuno tentaram para ajudar no seu Transtorno do Espectro do Autismo

Oito dias?!
É, porque são 2400mg por cada frasquinho, mas isso é muito variável, porque pelo que eu li às vezes as pessoas vão até 600mg ou mais por dia. Se for CBD de espectro completo a dose, a actuação e a resposta são muito melhores com menos miligramas. Vai depender do que a pessoa tiver à mão, mas parece que o CBD purificado chega a um limite que, mesmo aumentando a dose, não vai ter resultados e pode até ser contraproducente. Então o full spectrum é mais efectivo que o CBD puro. Vai depender muito de cada paciente, mas no meu filho é mais difícil de avaliar, porque ele não fala. Entende tudo o que nós dizemos, tem sentimentos, se dissermos piadas ele compreende e ri, mas não verbaliza. Comunica por gestos e por aproximação, não é através da palavra. Quando era bebé chegou a dizer algumas palavras, mas depois perdeu essa capacidade de falar.

Quando lhe dava o óleo importado, se cada frasco dava para 8 dias, quer dizer que gastava mais de 500 euros por mês?
Sim, exacto. Depois começou a ser mais difícil por causa da pandemia e agora tenho-me contentado a dar o CBD desta loja de canábis. Não sei se é muito confiável, mas temos este problema, é o que há.

Que concentração tem e quanto custa?
Tem 20%, um frasco custa 110€ e dá para 10 dias.

Já leu bem o que diz o rótulo?
Não traz muita informação, não tem propriamente a mesma informação que têm os medicamentos das farmácias.

E apercebeu-se que no rótulo diz para não ingerir nem inalar?
Sim, é o habitual. É a forma que eles encontraram para tentar ultrapassar as barreiras burocráticas, digamos assim. Eu percebo que eles se queiram ver livres dessa responsabilidade e foi a única coisa que consegui obter em termos imediatos. Na caixa diz que tem 20% de CBD, espero bem que tenha CBD pelo menos!

E como é que vê esta questão?
Eu acho mal, porque infelizmente as coisas deveriam ser mais às claras, mas é a única forma que as empresas encontram de tentar chegar aos consumidores. Não acho muito adequado, mas se eles não actuam, actuo eu mesmo. É a única forma que temos de chegar ao produto, há muita burocracia, muita escusa, que eu não entendo. Não compreendo, porque se for para dizer que é um cosmético ou que é um souvenir pode-se vender, se for para consumo humano já não se pode. É hipocrisia. Nós estamos na União Europeia mas com mentalidades, leis e regras totalmente diferentes de um país para os outros. A livre circulação de mercadorias e produtos é tudo uma brincadeira, não passa de teoria, porque aqui bloqueiam.

Nuno com 15 anos, numa sessão de hidroterapia

Como é que explicaria aos seus colegas médicos, por exemplo, que está a medicar o seu filho com algo que na verdade não é autorizado?
Eu já não tento explicar. A gente quando tem um problema procura uma solução, independentemente se é de uma forma mais certa ou menos certa, mais ou menos às claras. Muitas vezes temos de ser hipócritas com quem é hipócrita connosco, não é? E a verdade é que toda a gente sabe que a indústria farmacêutica, o governo e o Infarmed são hipócritas até não poder mais. A gente tem que se adaptar às situações. Eu como pai, se me disserem que mergulhar nas águas do Rio Jordão melhora o problema do meu filho, eu se calhar vou experimentar. É claro que sempre com um pé atrás e tudo o mais, mas a gente tenta fazer tudo pelos filhos, não é?

Claro.
E não tenho que dar propriamente uma satisfação aos meus colegas. Eu acredito nisto e já li vários trabalhos publicados a nível internacional com o CBD, não é só no Brasil, Israel e EUA. E vou para a frente, porque se a gente não começar a rasgar os paradigmas e a confrontar as coisas estabelecidas nunca vai para a frente. Já falei com médicos que não sabem nada sobre isto, como o Psiquiatra que medica o meu filho, já falei com o meu sobrinho que também é Psiquiatra, para saber se entre os seus colegas existe alguém que usa, ou se tem algum conhecimento. Ninguém tem, mas por não ter esse conhecimento, não quer dizer que as coisas não sejam válidas.

Ainda para mais sendo o CBD considerado um alimento, que pode ter benefícios, mesmo a nível preventivo.
Exactamente. Numa das vezes que o CBD do meu filho ficou retido na Alfândega, perguntaram-me: “É para medicação ou para alimento?” E eu respondi: “Vocês escolham, que é mais fácil. Se é mais fácil libertar como alimento, vocês digam, para mim tanto faz”. Numa das vezes, reclamei. Mandaram o CBD de volta para a empresa e quando me enviaram a segunda vez, recebi em casa, sem problemas. Infelizmente, no nosso país também temos o problema dos pequenos poderes. Se uma pessoa achar que pode decidir, “eu posso mandar isto para trás”, ela vai mandar, entende? Não facilitam a vida das pessoas, é muita burocracia. Mas eu vou lutando, um dia de cada vez e conseguindo aos pouquinhos resolver os problemas.

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