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Estará o cânhamo de regresso à indústria portuguesa?

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Cultura proeminente em Portugal desde há vários séculos, com papel fundamental nos Descobrimentos, o cânhamo ainda teve apoios e fundos europeus para a sua produção, mas entrou em declínio após a década de 1990. Apesar dos entraves actuais, há empresas em Portugal a apostar no cânhamo para fabricar vários produtos, essencialmente na indústria têxtil. Falámos com algumas delas.

Este artigo foi originalmente publicado na edição #2 da Cannadouro Magazine.

Não são fáceis de encontrar, mas as empresas que utilizam o cânhamo como matéria prima para fabricar os seus produtos em Portugal existem e, pelos vistos, estão para durar. Roupa de cama, vestuário, sacos, sapatos, cosméticos ou até mesmo botões, o cânhamo veio para ficar e pode utilizar-se em inúmeros materiais, sendo uma opção ecológica e sustentável.

Os botões da Louropel
A Louropel, uma empresa de Famalicão que produz todo o tipo de botões e fivelas para vestuário técnico e militar, tem entre os seus clientes algumas das maiores marcas da moda internacional e resolveu apostar no cânhamo há cerca de 20 anos. Coloca no mercado cerca de 12 milhões de botões por dia, sendo que 25% são ecológicos. Os botões de cânhamo representam, aproximadamente, 15% do volume total de negócios. Avelino Rego, sócio gerente da empresa, diz que a Louropel está “comprometida com a sustentabilidade ambiental há muitos anos”, por isso desenvolveu um processo produtivo baseado numa tecnologia ecológica, que permite incluir materiais reciclados e naturais, sendo um deles o cânhamo. “A decisão de utilizar o cânhamo partiu da ideia de recuperar esta planta, procurando dar um pequeno contributo para favorecer o relançamento da respectiva cultura em Portugal”. Apesar de os botões não serem 100% de cânhamo, uma vez que “são necessários ligantes técnicos para dar a consistência e a resistência requeridas aos botões”, já é possível incorporar 45 a 60% de cânhamo, segundo Avelino. O cânhamo utilizado pela Louropel é importado de Itália e a quantidade de botões produzidos mensalmente é variável: “Depende da aceitação do mercado, podemos ter num mês produções de milhões, como noutros de milhares”, refere. Na opinião de Avelino Rego, “os botões de cânhamo são adequados a todo tipo de vestuário” e são vendidos para “grandes marcas e fabricantes de todo o mundo”. Questionado sobre as principais vantagens da utilização desta matéria prima, o gerente da Louropel diz que “o cânhamo é uma planta antiquíssima, com pelo menos oito mil anos de existência, desprezado no século passado devido a preconceitos errados e falsas considerações. Todos os artigos produzidos a partir do algodão, da madeira ou do petróleo podem ser tranquilamente fabricados com o cânhamo. Tudo isto a baixo custo e com níveis de poluição nulos. O cânhamo é resistente, ecológico, não necessita de qualquer pesticida para se desenvolver abundantemente, é eterno e pode contar com milhares de utilizações comerciais válidas”, esclarece.

Mas então, porque é que a cultura do cânhamo está tão pouco desenvolvida no nosso país? 

“O pouco desenvolvimento da cultura do cânhamo deve-se muito aos preconceitos errados e falsas considerações que a sociedade em geral tem sobre o cânhamo. A par disso, nas últimas décadas em Portugal, a indústria apostou pouco na utilização deste material. No entanto, nos últimos anos na Europa, esta fibra está a ser novamente valorizada e Portugal deverá acompanhar o crescimento da cultura do cânhamo pelas fortes vantagens ecológicas, pelo potencial de aplicações industriais e consequente o potencial económico”, explica Avelino Rego.

Tearfil: Fibras amigas do ambiente 

Na Tearfil, uma fiação de fibras curtas fundada em 1973 em Moreira de Cónegos, Guimarães, já se produzem misturas com cânhamo desde 2009. Maria de Belém Machado, administradora da empresa, conta que a fiação está na origem de todo o processo criativo e industrial têxtil e que a empresa assume responsabilidades acrescidas para minimizar o seu impacto ambiental. “É nossa preocupação apresentar soluções de fios verdadeiramente sustentáveis e amigos do ambiente, que contribuam para uma indústria têxtil mais responsável e consciente. A utilização da fibra de cânhamo na nossa fiação foi uma decisão natural, considerando todos os seus critérios de sustentabilidade e desempenho”, conta Maria de Belém. A fibra de cânhamo cotonizada que se utiliza na Tearfil vem da Lituânia. “Consumimos aproximadamente 30 toneladas de fibra de cânhamo por ano, para desenvolver 45 produtos distintos”, refere a administradora da empresa, salientando ainda que, nos últimos dois anos, se verificou uma subida exponencial na procura: “Produzimos 10 vezes mais que no total dos cinco anos anteriores”. Os principais clientes da Tearfil são do sector têxtil e vestuário e situam-se, na sua grande maioria, na Europa. Quanto às vantagens de utilizar esta matéria prima, Maria de Belém Machado salienta que o cânhamo é uma fibra com “excelente desempenho, evita a formação de bactérias devido à excelente gestão da humidade, bloqueia os raios ultravioleta e é extremamente resistente e durável. Além disso, é uma fibra verdadeiramente amiga do ambiente, com certificação OekoTex, reciclável e biodegradável, que requer muito menos água para crescer em comparação com outras fibras naturais”. Na opinião da administradora da Tearfil, o motivo para o parco desenvolvimento desta cultura em Portugal poderá estar relacionado com “constrangimentos e restrições legais impostos à cultura desta matéria-prima, nomeadamente para uso industrial, devido ao risco dos possíveis fins ilícitos associados a esta espécie vegetal”. Acha que Portugal teria a ganhar com uma maior exploração do cânhamo? Maria de Belém garante que sim. “Acreditamos que o cânhamo para uso industrial é uma cultura com enorme potencial, devido à escassez de oferta no mercado, face à procura exponencial verificada nos últimos anos, e que pode contribuir para revitalizar a economia das zonas rurais”.

Marta Vinhas, da Sensi Hemp

Sensi Hemp: Nova marca alia design à sustentabilidade

Marta Vinhas nasceu em Santo Tirso e concluiu o curso Técnico Profissional Artes e Ofícios. Por vicissitudes da vida teve de abandonar o seu sonho de seguir arquitectura e iniciou o percurso profissional aos 18 anos no ramo automóvel, como operadora fabril, passando mais tarde para a indústria têxtil, onde se especializou ao longo de 18 anos. Apaixonada pela Natureza, pelos animais e pelas artes, descobriu a fibra e o ciclo do Linho num projecto de voluntariado, que a levaria mais tarde à participação na Cannadouro – Feira Internacional do Cânhamo do Porto, onde surgiu a vontade de desenvolver malha em cânhamo e confeccionar roupa em Portugal. Do sonho fez-se realidade e Marta criou a marca Sensi Hemp, que pretende aproveitar as vastas aplicações do cânhamo e oferecer uma variada gama de produtos à base destas fibras, desde artigos têxteis como roupa e calçado a cosmética ou produtos alimentares e de uso doméstico. “Quis criar uma linha de roupa ecológica e sustentável com o cânhamo, dando a oportunidade de fazer produção white label ou parceria com outras marcas”, refere. Marta diz ainda que procurou “uma visão abrangente de todos os benefícios do cânhamo para a sociedade, não só em questões de saúde como em termos ecológicos”. A missão da Sensihemp é “promover a sustentabilidade, a saúde e o bem-estar através da venda de produtos derivados de cânhamo fazendo renascer a tradição da planta que está tão enraizada na nossa cultura Portuguesa.” 

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