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Flowr diz que colheu 3 toneladas de canábis medicinal em Aljustrel

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Foto: D.R. | The Flowr Corp.

A RPK Biopharma, uma subsidiária da Holigen, detida pela empresa canadiana The Flowr Corporation, diz que colheu três toneladas de biomassa de 40 mil plantas de canábis para fins medicinais, produzidas ao ar livre, em Aljustrel, no sul de Portugal. Ao Cannareporter, duas fontes que preferiram não ser identificadas, disseram que este anúncio poderá ter sido apenas uma “manobra de marketing” para fazer subir o valor das acções da empresa na bolsa.

Entretanto, Vinay Tolia deixou o cargo de CEO na Flowr no final de Dezembro de 2020, por motivos pessoais, tendo sido substituído pelo presidente da empresa nos dois últimos anos, Lance Emanuel, que é agora o CEO interino.

Os números foram adiantados em meados de Dezembro pela Flowr à Agência Lusa, num comunicado de Imprensa onde actualizou as suas operações em Portugal, e replicado em vários meios de comunicação como o Jornal Económico ou a Sábado.  Segundo a Flowr, a colheita de canábis ao ar livre em Aljustrel, no distrito de Beja, “rendeu aproximadamente três mil quilos de biomassa com alto teor de THC”, o que, tendo em conta as 40 mil plantas, dará uma média de 75 gramas de flores por planta. Paralelamente, as colheitas em “politúneis” da exploração alentejana “renderam aproximadamente 35 quilos de flor seca de canábis com mais de 20% de THC”.

Vinay Tolia, deixou o cargo de CEO da Flowr Corporation no final de Dezembro de 2020 – Foto: D.R. | bnnbloomberg.ca

No comunicado enviado à Lusa, a Flowr disse “esperar obter” a certificação GMP [Good Manufacturing Practices/ Boas Práticas de Fabrico] europeia em 2021, para os 35 quilos de flores produzidas nos politúneis. “Não há nenhum outro projecto como este na União Europeia (UE) e esperamos poder alavancar esta capacidade de cultivo de baixo custo para produzir um conjunto diversificado de produtos derivados, bem como flores secas, que acreditamos que serão lançadas com certificação GMP”, disse Vinay Tolia, ainda CEO da Flowr, no comunicado emitido em Dezembro.

A empresa canadiana referiu ainda que concentrou os seus esforços na expansão do seu arquivo genético e actualmente mantém vários cultivars com alto teor de THC, incluindo Sour-P, Black Dog, Brains Choice, Gelato, Gorilla Glue # 4 e Green Doctor. Cada uma destas variedades foi testada como tendo entre 18 a 23% de THC.

A maior plantação da Europa? 

A Flowr diz que tem em Aljustrel a maior plantação de canábis para fins medicinais da Europa, numa área que vai chegar aos 40 hectares este ano, após um investimento total de cerca de 45 milhões de euros, criando até 200 postos de trabalho.

No entanto, duas fontes, que preferiram não ser identificadas, disseram ao Cannareporter não acreditar que a Flowr tenha efectivamente colhido três toneladas de canábis em Aljustrel. “Na minha opinião esta é uma manobra de marketing para aumentar o valor das acções na bolsa”, disse uma fonte ao Cannareporter. “Tenho certeza que a Flowr não produziu três toneladas de canábis em Aljustrel”, garantiu outra fonte.

Plantação da Flowr em Aljustrel – Foto: D.R. | The Flowr Corporation

Confrontado com estas declarações, Lance Emanuel, CEO interino da Flowr rebateu: “Nós realmente fizemos isso. Tal como mencionado no nosso comunicado à imprensa foram 3 mil kg de biomassa com alto teor de THC. Não acreditámos que a qualidade e a consistência da colheita fossem suficientes para atender aos padrões de GMP. Foram aprendidas muitas lições sobre o cultivo ao ar livre nesta escala no clima português, que nos serão muito úteis na próxima época de cultivo. Temos a obrigação de actualizar o mercado sobre eventos relevantes no nosso negócio. Os resultados da colheita ao ar livre em Aljustrel foram um acontecimento relevante e fornecemos uma actualização que reflecte com precisão os resultados do trabalho realizado em Aljustrel”, esclareceu o CEO interino da Flowr por email.

Parceria com a Tilray e aquisição da Terrace Global

Em Portugal, o Infarmed certificou as instalações da RPK Biopharma em Sintra como GMP, mas a empresa ainda não obteve essa certificação em Aljustrel. As flores apenas podem ser consideradas “medicinais” se tiverem esta certificação de boas práticas (GMP), o que não é o caso das 3,035 toneladas, que têm apenas a certificação GACP – boas práticas de agricultura.

A Flowr disse ter estabelecido um acordo com a Tilray para o “armazenamento estratégico” nas instalações em Sintra. “As partes vão comprometer-se a desenvolver uma abordagem colaborativa com o objectivo de alavancar a UE com as instalações com certificação GMP em Portugal destinadas à armazenagem de produtos de canábis medicinal para o mercado europeu”. Os termos comerciais do acordo não foram divulgados.

Recorde-se que a Tilray tem importado e exportado a partir de Portugal várias toneladas de flores de canábis, tendo sido o principal fornecedor a Fotmer Life Sciences, do Uruguai. O destino destas grandes importações através de solo português, passando pela Autoridade Tributária, não foi confirmado pela Tilray à MJBizDaily, nem os contornos das operações são conhecidos.

Deron Caplan, director de pesquisa e desenvolvimento na Flowr, também citado no comunicado, disse que “os resultados preliminares” da colheita em interior da empresa em Aljustrel “podem ser indicativos de um modelo de negócio de sucesso na UE e para a indústria de canábis medicinal”.

A parceria da Flowr com a Terrace Global teve início em Abril de 2020, inicialmente focada nas operações na União Europeia e em Portugal. A parceria acabou por resultar numa aquisição total da empresa, sendo que a Terrace Global investiu mais de 5,8 milhões de dólares na Joint Venture.

“Continuamos a trabalhar para fechar a aquisição da Terrace Global até ao final do ano e estamos extremamente animados com o que o futuro reserva para ambas as organizações”, destacou Vinay Tolia no comunicado de Dezembro.

Pacientes em Portugal ainda não deverão ter acesso a esta produção

O mais provável é que os pacientes a viver em solo português não tenham acesso a estas três toneladas de flor de canábis produzidas no Alentejo. A totalidade da produção deverá seguir exclusivamente para exportação, já que a RPK Biopharma ainda não tem autorização de comercialização de medicamentos ou derivados de canábis em Portugal.

A este propósito, Lance Emanuel diz que não é bem assim: “Temos muita vontade de distribuir o produto em Portugal, mas sem saber se podemos pegar nos 3 mil kg e criar um derivado, não sabemos onde esse produto vai parar. Pode acabar em Portugal, nós não preferimos exportar para outros mercados. Não é esse o caso. Mas enquanto não tivermos um produto que possamos lançar sob GMP, não temos nada que possamos vender aos pacientes portugueses. As discussões com os parceiros portugueses interessados em adquirir os nossos produtos decorrem continuamente, embora ainda não tenhamos divulgado quaisquer parcerias”, esclarece.

Os pacientes têm-se mostrado frequentemente revoltados pelo facto de haver já várias empresas a produzir canábis medicinal em larga escala em Portugal e que o acesso ainda lhes seja vedado.

O Cannareporter enviou mais questões à Flowr para perceber melhor os contornos das suas operações em Portugal e publica as respostas numa entrevista com Lance Emanuel em separado.

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