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Cânhamo

Como o cânhamo ajudou a erguer uma quase-catedral em Torre de Moncorvo

Publicado

em

Foro: Arquivo - Roby Amorim, Diário de Lisboa, 1981

Há uns 40 anos o investigador Telmo Verdelho (1943-), centrado no regulamento de uma feitoria régia com data de 1656, publicava numa revista regional (Brigantia) um interessante artigo sobre a cultura do cânhamo em Torre de Moncorvo. Num tempo em que se verificava uma certa proliferação do consumo da “passa”, atribuído à chegada dos “retornados” do ex-ultramar, não foi preciso muito para que um jornalista mais arguto, ligado à ANOP, ironizasse com o tema e espalhasse a notícia: “Há 300 anos: D. João IV mandou plantar liamba perto de Moncorvo”! – Diga-se de passagem que o título causou uma certa urticária junto das “pessoas de bem” do burgo…

Já o assunto tinha caído no olvido quando, em apêndice à edição portuguesa da obra de Jack Herer (1939-2010) The emperor wears no clothes (1985), Luís Torres Fontes e João Carvalho introduziram uma caixa intitulada “A capital portuguesa da cannabis”, referindo-se a Torre de Moncorvo (in O rei vai nu, actualização da 2ª ed. portuguesa, Novº. de 2002). Tratando-se de literatura algo “especializada”, o título passou ao lado dos decisores locais, mas, mesmo que lheschegasse ao conhecimento seria obviamente descartado, não só por uma eventual “má imagem”, como porque se não vislumbrava qualquer futuro num “produto” que era definitivamente passado. Para mais, andava então este município trasmontano apostado em criar uma imagem de marca mais centrada nos dormentes minérios de ferro da serra do Roboredo, tendo cunhado o slogan “Torre de Moncorvo, onde o ferro é a alma da terra”.

Igreja de Torre de Moncorvo. Foto: Nélson Campos Rebanda

É verdade que os minérios de ferro de Moncorvo são conhecidos e explorados seguramente desde a época romana, mas com muitas intermitências, e supomos que o seu peso da economia regional terá sido sempre um tanto residual, considerando a fraca qualidade das hematites e a escassa presença de magnetite. Mesmo no quadro do industrialismo pós-revolução industrial, depois de grandes expectativas suscitadas a partir da segunda metade do século XIX, o máximo que ocorreu foi cerca de uma década de extracção rentável, a que se seguiram duas décadas de agonia e encerramento desse ciclo mineiro. Aparentemente a história local do cânhamo teve mais sucesso e terá sido bem mais impactante, a ponto de se ter criado uma feitoria, em 1617, que controlou toda a produção regionaldurante mais de um século. E para mais, sabe-se, pelo registo de bens e propriedades, que a fábrica da igreja matriz nunca possuiu ferrarias, contudo sendo proprietária de vastas plantações canhameiras, no vale da Vilariça, como adiante veremos.

Em rigor não se sabe quando é que o cânhamo foi introduzido nesta região. Seria ainda durante a ocupação árabe, anterior à “reconquista cristã”? Seria após a formação da nacionalidade, ao longo da primeira dinastia portuguesa, pela mão da industriosa comunidade judaica? Se tal aconteceu, a cultura não teria qualquer expressão, coexistindo com o linho, mas para aplicações têxteis mais grosseiras.

Portugal produzia cânhamo em larga escala no Séc. XV
Com toda a certeza, porque tal ficou documentado, a produção em escala surge no século XV. E parece que até era de mais, considerando as queixas que os procuradores do concelho de Torre de Moncorvo apresentaram a D. Afonso V, nas cortes de 1439: “
em esta vila há uma ribeira a que chamam a Vilariça, na qual os homens lavram muitos linhos alcanaves [deduz-se: “al cannabis” – sublinhado nosso] além do razoável, de tal guiza que por causa do dito linho lavrarem tanto vêm a adoecer e morrem antes de tempo”. E ainda com prejuízo de outras culturas, pois acrescentam: “outrossim, por causa do dito linho deixam morrer as vinhas e deixam de lavrar o pão [cereal] e a terra vai-se a monte. Pelo que vos pedimos por mercê que lhes mandeis pôr pena a qualquer um que lavrar mais do que até dez alqueires de linhaça, que pague aquela pena que vossa mercê mandar…” (Alves 2000, IV)

Mais tarde, nos capítulos das cortes de D. Afonso V, de 7 de Julho de 1459, volta-se a dizer: “Em esta vila há uma ribeira que chamam Sabor e Vilariça. E todos moradores não têm outro reparo nem lavrança. E todo cada um ano é lavrada e semeada de trigo, cevada, milho azaburro e infindo linho alcanave e galego” (obra cit.).

As canameiras da Vilariça. Foto: Nélson Campos Rebanda

Acrescentavam que a vila de Torre de Moncorvo era muito concorrida de viajantes, pelo que carecia de mantimentos de pão e cevada, mas não os havia por causa da euforia do dito linho “alcanave”. Como sabemos, o cânhamo era destinado à fabricação de cordame para as caravelas e naus das armadas régias, sendo de admirar tão grande procura ainda nessa fase algo embrionária da empresa dos “descobrimentos”. Seria a Vilariça, à época, o único espaço abastecedor? O certo é que o cultivo intensivo do cânhamo representa, nesta região, o primeiro caso documentado de uma cultura “industrial” em grande escala, para além do “linho galego”, utilizado nos tecidos de uso comum. As condições especiais para o incremento desta produção aqui, sobretudo no baixo vale da Vilariça, deviam-se à fertilidade dos solos aluviais, associados ao microclima de tipo mediterrânico, com altas temperaturas no verão e mais amenas no inverno. A fertilização dos campos dava-se de modo natural, anualmente, devido a um fenómeno hidrológico localmente conhecido como “rebofa”: o vale era amplamente alagado durante as grandes cheias porque se verificava um refluxo das águas do Sabor, acrescido da enchente da ribeira da Vilariça, ao chocarem com o ímpeto do Douro que aqui se contorce em apertado meandro. A persistência da humidade do solo após essas cheias era outra condição favorável à cultura do cânhamo.

O linho cânhamo e as canameiras da Vilariça
Já em meados do século XVI o corógrafo João de Barros, ao passar pelo vale da Vilariça a caminho de Torre de Moncorvo, observou que aqui havia
“muito pão[cereal] e muito linho cânhamo”. Chegado à vila, entre outras coisas, diz que está em construção uma grandiosa igreja, “de bóveda” [abóbada], a qual havia quarenta anos que era começada e ainda não era acabada, apesar de trabalharem continuadamente nela (J. de Barros 1919).

Também o chantre da sé de Évora, Manuel Severim de Faria, ao cruzar a região em 1609, diz que“a principal fazenda desta terra é linho cânhamo, de que se colhe muito e lavrado em várias peças retempera todas as partes do reino”. A igreja matriz estava em fase final de construção, comentando o viajante que uma vez terminada “será obra insigne” (Serrão 1974).

Considerando que o século XVI é marcado pela construção do império marítimo português, a necessidade crescente de cânhamo para o cordame e enxárcias das naus da carreira das Índias e, posteriormente, para o Brasil, não havendo no reino abundância de terras com as excelentes condições do vale da Vilariça, torna as suas “courelas” (parcelas aráveis perpendiculares ao leito do rio e ribeira) especialmente dotadas para esse efeito. São as “canameiras” (campos de cânhamo). 

Acontece que essas terras de primeira categoria, “canameiras” ou outras, constituíam propriedade dos grandes senhores da terra, ou de instituições de vulto, como a Igreja ou o Concelho (município), arrendadadas a lavradores. Neste caso, porque o Concelho tinha todo o interesse na construção do grande templo que seria a igreja matriz, foi então afecta à obra uma rica “courela”, a dos Quinhões, com a renda anual de duzentos mil réis. Isto para além de mais nove courelas “canameiras” que a Igreja de Santa Maria (matriz de Torre de Moncorvo) possuía, em 1592, no baixo vale da Vilariça, segundo um tombo das propriedades então realizado. No documento é referida a quantidade de semente que comportava cada parcela, sendo que, no total, rondavam 50 alqueires de semeadura, o equivalente a 32.750 litros de semente, ou pouco menos, consiante os anos,  pois duas das courelas alternavam na semeadura de cânhamo e trigo. Tendo em conta a excepcional produtividade destas terras, em que cada pé de cânhamo excedia a altura de um homem a cavalo (no dizer de um corógrafo oitocentista), pode-se fazer ideia da riqueza anual arrecadada. Assim, julgamos ser de assinalar o contributo desta receita – juntamente com outros proventos e eventual contributo régio – para a construção da grandiosa igreja Nossa Senhora da Assunção, matriz de Torre de Moncorvo, como intuiu, já no séc. XIX, o historiador de arte Joaquim de Vasconcelos, num artigo sobre o cânhamo: “com o dinheiro que rendeu o linho, o cânhamo, e o modesto bicho da seda, levantou a gente de Moncorvo a sua majestosa catedral da Renascença” (J. Vasconcelos 1983). Se aqui o bicho da seda, à época, ainda não contava muito para o “campeonato”, já no tocante ao cânhamo há um grande fundo de verdade…

Falta referir que, aparentemente, esta produção não era manufacturada na região. As fontes quinhentistas são omissas, mas é de supor que apenas a preparação do cânhamo fosse feita localmente, sendo a matéria-prima depois encaminhada para as cordoarias régias do Porto e de Lisboa. Sabe-se que em 1617, o rei Filipe III (IV de Espanha), celebrou contrato com um fornecedor privado, Diogo Henriques Pereira (pelo apelido, “cristão novo”), morador em Torre de Moncorvo, para abastecimento regular dos armazéns da Casa da Guiné e da Índia (N. Rebanda 2003). Estavam lançadas as bases da feitoria régia que iria ser regulamentada por D. João IV em 1656, então transformada em monopólio da coroa (Telmo Verdelho 1981). Mas como diria o meu amigo Joel Cleto esta é já uma outra história…

Fontes e Obras consultadas:

Alves, Francisco Manuel, Abade de Baçal, Memórias Arqueológico-históricas do distrito de Bragança, tomo IV. IPM-Câmara Municipal de Bragança, 2000.

Barros, João de, Geografia de Entre Douro e Minho e Trallosmontes. Biblioteca Municipal do Porto, 1919.  

Cavalheiro, Eugénio; Rebanda, Nelson, A igreja matriz de Torre de Moncorvo. João Azevedo editor. Mirandela, 1998

Rebanda, N. Campos, “Evolução da paisagem agrária no Douro Superior”. Viver e Saber Fazer. Tecnologias tradicionais na região do Douro. Museu do Douro, Peso da Régua, 2003.

Serrão, J. Veríssimo, Viagens em Portugal de Manuel Severim de Faria – 1604, 1609, 1625. Lisboa, 1974.

Vasconcelos, Joaquim de, “Tecidos de linho”, Comércio do Porto, 26.08.1886, in “Indústrias portuguesas”, ed. IPPC, Lisboa 1983 

Verdelho, Telmo, “A cultura do cânhamo em Moncorvo”, Brigantia, vol. 1, nº 0, Janeiro-Março de 1981, p. 7-15

Documentação:

ADB (Arquivo Distrital de Braga) – Tombo das propriedades dos beneficiados desta igreja da villa da Torre. Gaveta das Cartas, doc. 4, 1592, fl. 267v-270 (treslado)

ADB (Arquivo Distrital de Braga) – Tombo das propriedades da igreja de Santa Maria da Torre de Moncorvo. Registo geral, livro 65, 1708.06.27, fl. 2-6v.

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* Nélson Campos Rebanda é Responsável pelo Projecto Arqueológico da Região de Moncorvo, Portugal

Nota: o autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Artigo originalmente publicado no #3 da Cannadouro Magazine

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