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Entrevistas

Paulo Correia: “Foi com a erva que deixei o álcool e as outras drogas”

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Paulo Correia no Parque da Cidade de Espinho - Foto: Laura Ramos | Cannareporter

Aos 46 anos, e depois de um passado de dependências e dois acidentes que o deixaram com sequelas graves para o resto da vida, Paulo Correia encontrou na canábis não só a porta de saída para o álcool e a heroína como também o alívio das dores que o atormentam diariamente. A canábis ajuda-o ainda a reduzir o stress, abre-lhe o apetite, distrai-o e devolve-lhe alguma vontade de sorrir, amenizando um pouco o seu sofrimento constante.

Paulo Correia talvez represente aquelas pessoas que não tiveram igualdade de oportunidades na vida, logo à nascença. O segundo mais novo de sete irmãos, cresceu no bairro social Ponte de Anta, em Espinho, numa família com poucos recursos e um pai alcoólico, que lhe batia praticamente todos os dias. Quando Paulo tinha 10 anos, o pai morreu, aos 43, vítima de alcoolismo e tabagismo. Sem grandes alternativas, e sem vontade de ir à escola, começou a trabalhar e aos 13 anos já era empregado da Soares da Costa, uma das maiores construtoras do país. E aí começou a sua vida errática, que passou pelo álcool, pelas drogas, o HIV e dois acidentes, que lhe conferiram 80% de incapacidade aos 25 anos e dor crónica permanente.

No apartamento onde ainda vive com a mãe e um irmão, há muito frio e humidade a entrar pelas velhas janelas no Inverno, que lhe agravam as dores nas costas. Muitas vezes, diz que dorme vestido, para evitar ligar o aquecedor, e assim não aumentar a conta da luz. “Quando está a chegar o inverno, já sei que vai ser um frio… até choro! Cheio de viver aqui, não tem condições nenhumas”, lamenta.

Os fungos acumulam-se no tecto e nas paredes de todas as divisões, principalmente na casa-de-banho, que não tem qualquer ventilação e que invariavelmente entope, por causa da velha canalização e de ‘todas as porcarias que as pessoas mandam para a sanita’, conta-nos a mãe de Paulo, ao mostrar a casa, onde vivem há cerca de 17 anos. “Isto está tudo podre, cheira a mofo. É triste viver assim”, conta, visivelmente desanimado.

Ponte de Anta é um degradado complexo de habitação social. No ano passado, o presidente da Câmara Municipal de Espinho, Pinto Moreira, fez “um apelo desesperado” ao governo sobre as condições de vida dos habitantes do bairro, identificando-as como “indignas para viver”. Num artigo do Jornal de Notícias, datado de 11 de Fevereiro de 2021, o autarca afirmou que há problemas estruturais graves nos blocos habitacionais da Ponte de Anta, propriedade do Estado – nomeadamente do IHRU – Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana -, que “colocam em risco pessoas e bens”.

Sem trabalho e qualquer relação amorosa há muitos anos, Paulo vive deprimido e sente frequentemente vontade de desistir da vida. “Só faço a medicação para andar aqui, mas não tenho interesses… Se eu tivesse um trabalhito para me entreter, ganhar o meu dinheiro, até dar algum à minha mãe e não estar ali dependente dela, percebe? Isto custa…”

Passámos uma tarde com Paulo Correia, em Espinho, para conhecer melhor a sua história, as suas dificuldades e perceber também como a canábis o tem ajudado ao longo da vida.

Paulo, como é que começaram os seus problemas de saúde?
Os meus problemas de saúde começaram quando me meti nas drogas e troquei seringas com o meu irmão e com várias pessoas. Já me tinham mandado repetir umas análises em 95 ou 94 e eu não liguei; depois fui internado no Hospital de Aveiro e de lá mandaram-me para outro hospital, onde me disseram que estava com HIV. A minha mãe perguntou ao médico se havia algum problema de eu utilizar as toalhas ou assim, mas não, só objectos cortantes (para fazer a barba e isso) e com o HIV podia estar à vontade, que não havia problema nenhum.

Paulo tem 80% de incapacidade e custa-lhe bastante caminhar, por isso prefere andar de bicicleta. Aqui, desce a custo a rua que dá acesso ao Bairro de Ponte de Anta, onde vive, em Espinho. Foto: Laura Ramos | Cannareporter

Onde é que nasceu e cresceu?
A minha mãe veio em 74 de Angola e não tinha residência, eu nasci em 75 no Porto, mas vim logo para Espinho, onde cresci e sempre vivi. A minha mãe tinha um estabelecimento e vivemos ali no bairro há 13, 14 ou 15 anos, já não sei. Não, há 17… foi desde que as bombas estão lá, não sei.

Qual era a profissão dos seus pais?
O meu pai trabalhava na Câmara, no alcatrão. E faleceu devido a isso, a inalar fumos e tudo, ele fumava muito e também bebia, muito… faleceu cedo, com 43 anos.

Que idade tinha quando o seu pai morreu?
Ia fazer onze anos.  

Como é que foi a sua infância?
A minha infância não foi nada boa… Tive um padrasto, também… Não me dava bem com ele… Depois uma pessoa começa a reflectir e até era uma boa pessoa, percebe? A minha mãe viveu mais anos com o meu padrasto do que com o meu pai.

“O meu pai bebia muito e nós não podíamos brincar… levávamos porrada. Eu, em criança, nunca tive um brinquedo.”

Quantos irmãos tem?
Éramos sete. Um já faleceu de HIV. Eu estava num hospital e ele estava noutro.

Eram sete irmãos a viver na mesma casa?
Sim. Duas raparigas e cinco rapazes.

Até que idade é que o seu pai viveu com a sua mãe? Ou separaram-se quando ainda era bebé?
Não, o meu pai nunca se separou, faleceu e a minha mãe depois é que se juntou.

Como era a sua vida em família?
O meu pai bebia muito e nós não podíamos brincar… levávamos porrada. Ele nem nos dava um rebuçado, nada… Eu, em criança, nunca tive um brinquedo. Os brinquedos que recebia eram da Câmara, porque ele trabalhava na Câmara, e naquela altura eles ofereciam brinquedos no Natal. Se estragássemos os brinquedos ainda levávamos porrada. 

O seu pai bebia todos os dias?
Sim.

E a sua mãe, protegia-vos?
Sempre. Até à data de hoje, não tenho nada a dizer da minha mãe, ajuda-me em tudo. Tudo o que eu precisar, a minha mãe ajuda. E ela sabe que eu fumo. Às vezes chama-me drogado, mas não é… no fundo, ela sabe que é para o meu bem. 

O Paulo foi à escola?
Sim, fiz a 4ª classe. Ainda andei no Ciclo, mas faltava mais vezes do que ia à escola.

Não gostava de ir à escola?
Não, queria trabalhar. Queria ter o meu dinheiro, mas o dinheiro, ao fim e ao cabo, não era para mim, não é? Entregava-o à minha mãe, com doze anos ou quê, mas depois, quando tinha quinze, já comecei a ficar com muito dinheiro para mim.

Com que idade é que começou a trabalhar?
Com doze anos. Era estofador de automóveis no Manuel Cavadas, aqui na Rua 20. E depois fui para a Soares da Costa, como aprendiz de serralheiro, quando tinha treze anos. Dos treze até aos 16, 17 anos, porque depois vim embora, e foi quando me comecei a meter nas drogas pesadas. Andei nas obras e nunca houve nenhum patrão que me mandasse embora por eu ser malandro, simplesmente vim embora da Soares da Costa porque prometi porrada a um encarregado (coisa que não devia ter feito, por causa de umas luvas), mas nunca houve ninguém que me mandasse embora por ser malandro. 

Paulo Correia começou a trabalhar aos 12 anos, como estofador de automóveis, e diz que aos 13 já tinha contrato na Soares da Costa, uma das maiores construtoras do país. Foto: Laura Ramos | Cannareporter

Então, o seu trabalho corria bem…
Sim, sim, eu com 13, 14 anos, já tirava cento e tal contos. Só de prémio tirava vinte e tal contos, tanto como o ordenado, e depois eram horas extra que eu fazia, trabalhava, por exemplo, das sete da manhã à meia-noite, duas da manhã, três da manhã…

Tinha contrato de trabalho?
Na Soares da Costa tinha contrato.

Com 13 anos? E não era considerado trabalho infantil? Não deveria estar na escola…?
Não sei… Eles meteram-me.

De que maneira é que consome a canábis? É sempre fumada?
É fumada. Não tenho um vaporizador, nunca tentei, mas hei-de comprar um vaporizador para tentar, para ver… Dizem que se sentem melhor os terpenos, tudo… Vou tentar comprar um vaporizador.

Tem dinheiro para isso?
Não tenho, mas vou ter de arranjar.

E vai poupando, também?
Sim.

Quanto é que recebe por mês?
Recebo de pensão 275,30€, não dá para nada. Se for comprar um maço de tabaco todos os dias, lá vão os 275€.

Mas fuma um maço de tabaco por dia?
Não, misturo na erva.  

Então só fuma canábis?
Praticamente. E tenho lá um vaporizador de óleo de CBD. A Segurança Social tem-me ajudado com a medicação. Eu levo lá os recibos e ela manda-me o dinheiro. 

A sua mãe ajuda?
Ajuda, ela ajuda. Mas a minha mãe vai fazer 79 anos… para arrumar a casa… a minha irmã vai lá, só que havia de ajudar lá a fazer uma limpeza. A casa está assim cheia de pó, percebe? É um bocado lixado.

“A minha mãe uma vez disse-me para me meter no álcool, que saía mais barato. Mas, no fundo, ela sabe que o álcool não é nada bom…”

E ela importa-se que o Paulo tenha lá as plantas?
Não, então, quando me roubaram ela também ficou lixada… no barraco… Ela quando viu como eu fiquei, ai Jesus, eu andei uns meses em que não podia ver o gajo, o meu vizinho, não o podia ver… Quando for para cima, vou-lhe mostrar o meu barraco. Arrombaram-me só a porta do meu barraco, a de fora não arrombaram. E eu gostava muito que isto fosse legal, mesmo para fins recreativos, uma pessoa vai ali à loja, aqui na Rua 19 e o que é que vendem lá? Erva de CBD. Relaxa, mas não tem aquele THC que uma pessoa está habituada a fumar. Drogas… no meu bairro, aquilo parece o Aleixo. E por baixo do meu prédio é sempre a “pedrar” pessoas, percebe?

Há muito tráfico de droga no seu bairro?
Claro que há. Heroína, coca… e é pessoal que não consome, está só é a ganhar dinheiro. 

E ofereceram-lhe heroína quando o Paulo queria comprar canábis?
Isso, foi.

A mãe de Paulo Correia tem 79 anos e preocupa-se com o futuro do filho. Foto: Laura Ramos | Cannareporter

Que idade é que tinha?
Tinha aí quê… eu comecei a fumar canábis também… comecei a beber cedo e depois também fumei. Houve lá uma pessoa no meu trabalho que me apresentou um charro e eu fumei e gostei… “Oh, por que não?”… Experimentei e gostei. E depois meti-me no álcool, não é? Mas não bebia muito… Bebia! Bebia, bebia muito. Sempre bebi muito. Depois é que me meti nas drogas… na heroína. Eu trabalhei nas pontes, ali no Lindoso e em Ferreira do Zêzere, e a minha mãe tinha garrafas de whisky lá na loja para vender e eu já roubava garrafas de whisky quando trabalhava na Soares da Costa, nas pontes. E aqueles alentejanos, aquele pessoal trazia garrafões de vinho e era cada “muleta”, ai Jesus… Eles lá bebiam cerveja às 10 da manhã e eu comecei a beber também, comia sandes de ovo também… naquela altura eram outros tempos. A sande de ovo sabia bem.

Então, na Construção Civil, acha que há muito consumo de álcool e drogas?
Principalmente álcool, há. E mesmo nas praias, ainda há um bocado vi, não há polícia. Se é proibido, na via pública, consumir álcool… Ainda há um bocado vi pessoal ir ao Pingo Doce buscar cerveja e ir para a praia. Havia de haver fiscalização na praia, porque na praia não se pode consumir álcool, acho eu, não sei… 

O álcool pode consumir-se em todo o lado… é comum, não é? É aceite.
O álcool é a droga mais acessível que há para uma pessoa. Muita gente diz que não, mas é a droga mais barata que há. A minha mãe uma vez disse-me para me meter no álcool, que saía mais barato. Mas, no fundo, ela sabe que o álcool não é nada bom…  

“Com a canábis consigo estar mais distraído, não pensar tanto, alivia-me a dor e consigo rir-me mais, não sofro tanto.”

Mas e a heroína, então, como é que aconteceu? Já bebia álcool, com que idade é que começou a consumir heroína?
Aí com 16, 17 anos… Fumada. Mas isso foi logo de repente, fumei e comecei logo a injectar. Tinha um irmão meu, também… Ele estava no Porto, não estava comigo, depois é que veio cá para casa da minha mãe e eu partilhei agulhas com ele… e ele já devia estar infectado… foi aí. E não foi só com ele, foi com mais pessoas que eu partilhei seringas. Naquela altura, não havia essas carrinhas de troca de seringas, nem nada, uma pessoa tinha de ir à farmácia e como estava a ressacar, uma pessoa queria era desenrascar-se. Eu até com água do rio “mandei”.

Mas entretanto, aí pelo meio, houve um acidente e ficou com um problema na perna, não foi?
Sim, tive um acidente, que foi quando trabalhava em Ferreira do Zêzere, na ponte. Vinha eu e o meu oficial. Eu vinha a dormir, decerto… O meu oficial, não sei se adormeceu, espetou-se contra um poste do meu lado e eu estive em estado de coma durante duas semanas. Estive num hospital em Coimbra e depois é que fui transferido para Espinho para ser operado à perna.  

Foi uma recuperação longa?
Não foi muito longa, era novo e recuperei bem. Só que agora meto aqui a mão e parece que sinto uma dor aqui. Tenho espasticidade, devido à fractura da coluna. 

Paulo diz que não tem muitos motivos para sorrir, mas fê-lo na festa de encerramento da PTMC – Portugal Medical Cannabis, a bordo de um catamarã, no Rio Tejo, em Lisboa. Foi a primeira vez que visitou a capital e que andou de barco. Foto: Renato Velasco | PTMC / Cannareporter

E como foi esse outro acidente?
A coluna foi quando deixei as drogas pesadas… meti-me no álcool, para não consumir drogas andava sempre bêbedo. Adormeci em cima de um muro, caí e fui para o hospital. Mandaram-me para casa com a coluna fracturada, fui para o Hospital de Espinho, de Espinho fui para o Hospital de São Sebastião, do São Sebastião mandaram-me para Espinho, de Espinho mandaram-me para casa embrulhado num lençol e eu tinha a coluna fracturada e disse à minha mãe que não queria ficar em casa, que queria ir para o hospital e fui para o Monte da Virgem e só ao fim de duas semanas é que me mandaram fazer uma ressonância magnética. Acusou dois elos na cervical “ralados” e tive que ser operado no São Sebastião. E estive lá um tempo, com os ferros a esticar a medula, para depois ser operado. 

Quantos anos tinha?
Tinha 25.

E aos 25 anos ficou com sequelas para sempre…
Sim, colei dois elos na cervical. Paralisa-me o lado direito todo. Não tenho massa muscular no lado direito, nem consigo abrir bem a mão. Ando a fazer fisioterapia e não a consigo levantar, não tem força.

E espasticidade?
Sim, muita, na perna. 

Como é que depois criou esta relação com a canábis?
Porque eu cheguei a certo ponto e virei-me para mim: “Se continuar no álcool, vou morrer. Se fumar umas ganzas, ando bem e só me faz bem”. Alivia-me o stress, as dores, abre-me o apetite e sinto-me muito bem. 

E como é que conseguiu deixar o álcool e a heroína?
Foi com a erva. Com o haxixe também. Mas foi com a erva que eu deixei o álcool e as outras drogas. Ia comprar ao bairro, porque não tinha plantado, mas agora já tenho, para mim, para meu consumo, e já não preciso de gastar dinheiro. É dinheiro que meto ao bolso. 

“Eu cheguei a certo ponto e virei-me para mim: ‘Se continuar no álcool, vou morrer. Se fumar umas ganzas, ando bem e só me faz bem’. Alivia-me o stress, as dores, abre-me o apetite e sinto-me muito bem.”

O que gostava de dizer a quem tem a responsabilidade de legalizar? O Paulo não tem dinheiro para comprar…
Não tenho 150€ para dar por 15 gramas. Onde? Nunca na vida…

Onde é que costuma arranjar a sua canábis?
A minha canábis? Sou eu que planto, uns pézitos para mim.

Sabe que isso é ilegal…
É ilegal, mas tenho que plantar, não tenho culpa de ser ilegal… Tenho é que olhar pela minha vida!

E se lhe aparecer a polícia à porta?
Oh, só me vai é dar prejuízo! Vai-me levar tudo e vou chegar ao juiz e ele vai-me mandar para casa… Eu não tenho problemas com isso, nunca tive, não sou traficante, é para meu consumo.

E também pelo seu direito à saúde…
É pelo meu direito e é para me tratar… 

O Paulo percebeu que a canábis lhe faz bem?
Sim, sim, e muito… 

E quando falou nisso à sua médica, o que é que ela lhe disse?
“Ó Paulo, se vem aqui por causa da canábis, dou-lhe já alta!” E eu fiquei assim… parei. Sou obrigado a ficar dependente dos comprimidos. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Fiquei pasmado.

Acha que ela não teve empatia pelo seu sofrimento ou acha que ela ainda não tem informação para perceber que a canábis seria o melhor para si?
Sim, eu acho que ela não deve ter informação ainda, os médicos ainda não têm muita informação… mesmo com a minha médica de família, ela teve uma reunião com os outros médicos sobre a canábis e disse “Ó Paulo, vou mandá-lo para uma consulta da dor, eles é que tratam disso.” E quando fui à consulta da dor a médica disse “Se veio aqui só por causa da canábis, vou-lhe dar alta. Há mais medicamentos para tentar, além do Tramadol e o Paracetamol, vamos tentar e depois vê-se.”

Alguns dos medicamentos que Paulo costumava tomar. Agora, diz que só toma os do HIV e Diazepam, que ainda não conseguiu deixar. “Estou agarrado”, disse, sobre a benzodiazepina, que a médica mandou tomar ao almoço e ao jantar. Foto: Laura Ramos | Cannareporter

E como se deu com esses medicamentos?
Mal. Vómitos… Eu ia para o café e parecia que estava todo tolo, todo drogado, não me sentia nada bem. Mesmo no estômago, figadeira, tudo, não me sentia bem. Dores de cabeça, muitas. Não preciso do Tramadol… as dores que eu tinha são as dores que eu tenho, tomando Tramadol ou não, são as mesmas. Com a canábis consigo estar mais distraído, não pensar tanto, alivia-me a dor e consigo rir-me mais, não sofro tanto.

Tem outro estado de espírito?
Sim, sim, tenho outro estado de espírito, não tem nada a ver com o Tramadol. Quem diz o Tramadol diz o Diazepam, esses medicamentos que eu ando a tomar. 

Quais são os medicamentos que está a tomar?
Não sei o nome dos medicamentos todos, sei que estou a tomar o anti-retroviral do HIV, que isso não tem nada a ver, tomo o Diazepam, Pregabalina, uns para a espasticidade, um protector para a barriga e agora também a Amoxicilina, porque eu apanhei um resfriado, mas já me sinto muito melhor.

“É ilegal, mas tenho que plantar, não tenho culpa de ser ilegal… Tenho é que olhar pela minha vida!”

As plantas que tem em casa, sabe o que cultiva? O Paulo escolhe as suas variedades?
Sim, umas com os níveis de THC altos, mas tem também 1% de CBD, CBN, CBG, tem terpenos… é erva boa. 

E não utiliza químicos?
Não, uso só os fertilizantes, mas depois no fim lavo a terra, nas duas últimas semanas, só com água.

Assim sabe o que está a consumir, não é?
Sim, claro, é uma coisa que eu planto e sei o que estou a consumir. Não há cá nada com bicho, com pesticidas… Não meto nenhum pesticida. O insecticida que faço é com Super-Pop e vinagre. E resulta.

No seu bairro há muito tráfico?
Sim, bastante. Se quiser comprar heroína ou coca é à porta. 

E não lhe oferecem?
Não oferecem, porque eu também não quero.

Eles já sabem?
Claro. Vêem-me sempre a fumar, sabem que eu não quero.

E agora aos 46 anos, que objectivos é que tem?
Vou ver se tiro a carta, para ver se compro um carro, porque não vou andar toda a vida de bicicleta. Ando de bicicleta, é raro caminhar, ando mais de bicicleta.

De vez em quando, Paulo arrisca cultivar as próprias plantas em casa. Foto: Laura Ramos | Cannareporter

O que é que gostava de fazer no futuro, além de tirar a carta?
Gostava de ter um trabalho, para me entreter, assim com o computador, um trabalho informático. Consigo mexer num computador, sei enviar e-mails, até tirei um curso do Office, tive aulas de Powerpoint, Excel, isso tudo, sei criar um documento, sei criar uma pasta, sei mexer em muita coisa num computador. Deram-me 79% de incapacidade. Eles disseram 80% e o médico disse que “79%, para o que é, serve”. Na altura, era para ver se baixava a renda da casa, e além disso, ao tirar o atestado multi-usos, fiquei sem subsídio de férias e de Natal, porque eu recebia uma pensão com esses subsídios. Agora passou a pensão de inclusão e não tenho direito. É mais um bocadinho, pouco, mas não tenho direito aos subsídios. E além disso, foi-me indeferido um complemento para dependência a 100% (eram mais 400€), só por eu estar a viver com a minha mãe, porque a minha mãe é obrigada a sustentar-me… Não me deram. Tinha que estar a viver sozinho para me darem esse dinheiro.

Perdeu esse direito porque vive com a sua mãe?
Sim, ainda tenho lá os papéis em casa. 

E se vivesse sozinho já lhe davam o dinheiro?
Davam. Ou se a minha mãe só ganhasse uma reforma aí de 200€, só que ela tem uma pensão do meu pai… Eles fizeram a conta e dá mais do que o limiar de não-sei-quê, da pobreza, qualquer coisa assim…

“Eu podia ter uma vida, não é? Mas não tenho. Também é do HIV, toda a vida pensei nisso também, não sei. Pouco interesse tenho.”

E como é que se sente a viver quase no limiar da pobreza?
Sinto-me mal, sinto-me triste, não tenho alegria na vida. E a minha mãe estar a sustentar-me, a minha mãe tem 79 anos, é um bocado complicado estar a viver às custas da mãe.

Dá-se bem com a sua mãe?
Dou-me bem, mas chateio-a muito… mas dou-me bem.

Sinto muito que tenha tido pouca sorte…
Eu com 25 anos fiquei assim. Estou assim há 21 anos… nunca mais fiz nada. Não tenho interesse na vida. Só faço a medicação para andar aqui, mas não tenho interesses… Se eu tivesse um trabalhito para me entreter, ganhar o meu dinheiro, até dar algum dinheiro à minha mãe e não estar ali dependente dela, percebe? Isto custa…

O Paulo, já por várias vezes, disse que não tinha razões para viver… Sente-se assim muitas vezes?
Sim, porque eu não procuro uma mulher, porque também não tenho trabalho, não tenho nada… Também, quem é a mulher que está para sustentar assim um homem? Eu podia ter uma vida, não é? Mas não tenho. Também é do HIV que eu tenho, toda a vida pensei nisso também, não sei. Pouco interesse tenho.

Mas tem de arranjar… vai arranjando, no dia-a-dia, não é? Vai fazendo a fisioterapia…
Sim, faço a minha fisioterapia, ando de bicicleta, gosto de ir ver o mar… se não estiver lá ninguém, melhor… no mar, se estiver sozinho, melhor.

 

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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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Licenciada em Jornalismo pela Universidade de Coimbra, Laura Ramos tem uma pós-graduação em Fotografia e é Jornalista desde 1998. Foi correspondente do Jornal de Notícias em Roma, Itália, e Assessora de Imprensa no Gabinete da Ministra da Educação. Tem uma certificação internacional em Permacultura (PDC) e criou o arquivo fotográfico de street-art “O que diz Lisboa?” @saywhatlisbon. Laura é actualmente Editora do CannaReporter e da CannaZine, além de fundadora e directora de programa da PTMC - Portugal Medical Cannabis. Realizou o documentário “Pacientes” e integrou o steering group da primeira Pós-Graduação em GxP’s para Canábis Medicinal em Portugal, em parceria com o Laboratório Militar e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.

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Anónimo
2 anos atrás

Excelente reportagem

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