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Entrevistas

Fabrício Nobre: “O mercado da canábis tem um gostinho diferente, os meus olhos brilham”

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De sorriso fácil e humor contagiante, Fabrício Conrado Nobre é, talvez, um dos rostos mais divertidos do mundo da canábis em Portugal. Nasceu e cresceu no Brasil, mas acabou por casar com uma portuguesa, o que o fez radicar-se em Portugal, já lá vão mais de 20 anos.

Com uma carreira dedicada às tecnologias, Fabrício é a cara por trás da widepartner, uma empresa do grupo InCentea que trabalha com o software de gestão Sage, um dos mais conceituados a nível internacional. Na canábis, encontrou o seu mais recente negócio, adaptando o que já fazia noutras indústrias a um sector inovador, em franco crescimento.

Estivemos com Fabrício Nobre no seu escritório de Lisboa, para uma conversa esclarecedora sobre o papel da tecnologia e do software de gestão ao serviço da indústria da canábis.

Como é que o Fabrício, sendo brasileiro, acabou a viver aqui, em Portugal?
Este ano já faz 21 anos que estou aqui e o que eu digo sempre é: o que me trouxe para Portugal foi o coração. Estava a fazer um backpacking pessoal e profissional em Inglaterra, depois de terminar a minha faculdade no Brasil, e fiquei num hostel, onde conheci uma portuguesa que falava parecido comigo. Essa portuguesa é hoje a mãe das minhas três filhas, por isso eu digo que o que me trouxe para Portugal foi o coração. Eu já tinha montado uma empresa que vendia software no Brasil – que é aquilo que eu faço até hoje – mas na altura, passados 47 dias, larguei tudo e vim para Portugal, com “uma mão na frente e outra atrás”. Tinha 24 anos, era um ‘moleque’ ainda, e fui bater na porta da Sage, o fabricante de software que era o líder (e ainda é) na Europa. Foi assim que comecei a minha jornada em Portugal.

Então já não voltou mais para o Brasil?
Passados dois anos fomos para o Brasil e passámos lá cerca de dois anos, mas regressámos a Portugal porque a minha sogra adoeceu. Entretanto fui para uma multinacional francesa, onde fazia a mesma coisa, mas com a crise de 2008 a empresa fechou. Fui a última pessoa a sair da empresa e tinha duas alternativas: ou ia para o desemprego e ficava a ganhar o subsídio durante dois anos ou submetia um projecto de criação do próprio emprego. Foi o que fiz.

“Os simbolismos existem e a folha verde sempre esteve ligada à minha trajectória.”

E aí recebeu logo o a totalidade do subsídio, certo?
Certo, recebi a totalidade para investir na criação do meu próprio emprego. Comprei um carro comercial e um laptop novo, fui para a secretária de casa falar com os clientes todos da altura: “olha, a empresa onde eu trabalhava deixou de existir…”. Tinha acabado de ser pai há meses e, pronto, tive de me voltar para o lado empreendedor da coisa.

Foi aí que fundou a widepartner?
Não, aí fundei a GreenLeaf, que tinha uma folhinha verde como logótipo. O nome Sage em português significa “sálvia”, que tem uma folha verde, e depois eu acho que tudo combina. Os simbolismos existem e a folha verde sempre esteve ligada à minha trajectória. Criei a minha empresa sozinho, só que essa empresa foi crescendo e, passados doze anos de crescimento, tinha levado o software para o Brasil. Criei a empresa no Brasil, tinha equipas lá e em Portugal, e a empresa já estava com uma dimensão demasiado grande para mim, como gestor e único sócio. Além disso estava a ser pai, a cada três anos nascia uma filha, e quando a minha filha mais nova tinha três anos, não sei porquê, deu-me um clique e pensei: “Olha Fabrício, a vida não é só trabalho, não é só ter o Porsche na garagem, não é só viajar muito – ia oito vezes por ano ao Brasil, sem contar com os outros países – acho que tens de encontrar uma maneira de aproveitar tudo o que construíste e melhorar a situação”. Então, a minha opção era dar um novo sentido para a minha operação no Brasil, porque eu não queria viajar muito, queria continuar em Portugal. E o que aconteceu foi que um concorrente meu, o grupo InCentea, que tem 35 anos no mercado, tinha intenção de se expandir para o mercado do Brasil e começámos a conversar. Chegámos a um entendimento e criámos o conceito para reforçar a marca widepartner, que é uma fusão de um conjunto de empresas que já existiam no mercado. Na altura, enquanto GreenLeaf, a minha empresa tinha 20 a 30 funcionários no Brasil e um volume de facturação razoável, mas hoje fazemos parte de um grupo de 360 pessoas, com uma facturação de cerca de 20 milhões, estamos em nove países e é um ecossistema diferente. A widepartner, dentro do grupo InCentea, é a detentora da parceria com a Sage, que é o fabricante do software com o qual eu trabalho há mais de vinte anos.

Para quem não conhece, pode explicar melhor o que faz a Sage?
A Sage é uma empresa inglesa, cotada na Bolsa de Londres (LON: SGE), e fornece ao mercado software de gestão para controlar e gerir toda a área da contabilidade, da logística, da produção, a área financeira, os recursos humanos, etc., para qualquer tipo ou segmento de empresa.

“Eu aqui sou brasileiro e no Brasil sou português. Então, já sou assim um cara sem pátria.”

E qual é o papel da widepartner?
A widepartner é o parceiro da Sage que faz a venda, a implementação do software e o apoio ou suporte técnico. Enquanto grupo, estamos em nove países, mas a widepartner tem escritório em Portugal, Espanha, França e Brasil. O nosso papel é ajudar as empresas, sejam elas dos sectores tradicionais da indústria, distribuição, serviços ou agrícolas, a fazer a gestão do seu negócio através do software.

E como é que chegou ao mercado da canábis?
A canábis apareceu quando um dos pioneiros e principais players do mercado internacional veio para Portugal, logo na sequência da alteração da legislação que permitiu a canábis medicinal. Essa empresa optou por usar o software Sage e como eu sou curioso, fui investigar e vi neste sector uma oportunidade.  Eu sempre fui um bocado “careta”, e continuo a ser, só comecei a beber bebidas alcoólicas quando vim viver para Portugal, passei a minha juventude sem praticamente ir a festas. Mas uma coisa engraçada é que, já em adulto, os meus amigos achavam que eu me drogava, porque era muito irreverente e o mais acelerado, o primeiro a entrar na pista de dança e o último a sair. Como nunca me viam com uma garrafa de álcool na mão, nem sequer bebia uma cerveja, então só podia ser droga, mas a verdade é que nunca experimentei. Quando vim para Portugal, a minha cunhada dizia “Fabrício, dá tempo ao tempo que tu vais entender o que é o vinho…” Portanto, hoje sou uma pessoa mais socialmente alcoolizada do que era! (risos)

Não quer dizer que tenha de beber álcool para ser cool, não é?
Não, obviamente que não, mas hoje consigo ter algum prazer ao beber um bom vinho e tomar uma cervejinha quando apetece, quando está calor.

Se calhar caiu no caldeirão quando era pequeno, como o Obélix, do Astérix, e durante a sua vida nunca precisou da poção… (risos)
Já tinha nascido com isso! (risos) Uma coisa engraçada: o meu pai é um fabricante de bebidas alcoólicas no Brasil e tem uma indústria que abastece 60 mil pontos de venda.

Às vezes isso tem o efeito contrário. Por exemplo, filhos de pais que fumam às vezes têm aversão a tabaco.
Pois, talvez, o meu pai fumava, mas eu nunca o vi fumar. A minha mãe nunca fumou e eu também não.

“Comecei a ir a esses congressos todos, para aprender mais sobre canabinóides e sobre o sistema endocanabinóide.”

 

 Com a boa disposição que o caracteriza, Fabrício informou-se sobre canábis medicinal indo a todos os congressos e conferências que conseguiu. Aqui, na PTMC22, em Lisboa. Foto: Renato Velasco | PTMC

Mas como é que, afinal, começou a pesquisar a canábis?
Juntei a curiosidade à questão profissional e o que foi mais interessante foi a jornada, que também é um dos motivos pelos quais conheço o vosso trabalho, através do Cannareporter. O meu primeiro contacto com o mundo da canábis foi na conferência da PTMC – Portugal Medical Cannabis – onde fui ver e ouvir médicos e investigadores a falar sobre canábis. Fiquei muito surpreendido com um médico que falou deitado na cama, lembra-se?

 

Claro, o Dr. Franjo Grotenhermen.
Exacto! Você tem uma pessoa acamada que é um palestrante… Alguma coisa ali me despertou. Ver médicos, neuropediatras, que cuidam de crianças autistas há 20-30 anos a dizer: “Olha, há 20-30 anos que eu cuido dessas crianças e nos últimos 2-3 anos passei a tratar com esse tipo de medicamento e os resultados são diferentes…” Isto tudo mexeu mesmo comigo. De várias coisas que acompanhei na conferência, vi que há um espectro alargadíssimo de oportunidades de melhoria da qualidade de vidas das pessoas, que não tinha só a ver com sintomas de ansiedade, de depressão, mas que são alternativas para analgésicos, para estabilização de crises da epilepsia, para o autismo… e então comecei a ir a esses congressos todos, para aprender mais sobre canabinóides e sobre o sistema endocanabinóide.

Foi uma grande revelação para si?
Foi uma quebra de paradigma muito grande. Ouvir o testemunho de uma mãe, que se interroga como e onde é que vai arranjar canábis para melhorar a qualidade de vida do filho, um produto que é estigmatizado como uma droga… como é que pode ser isto? Hoje em dia já recebo contactos de pessoas, porque vêem que eu falo muito sobre o tema a nível profissional, partilho conhecimento e apoio instituições que ajudam as pessoas a conhecerem mais sobre a canábis. Obviamente tem a ver com o meu lado profissional de poder ajudar as empresas a conseguirem estabelecer-se no mercado, cumprir um conjunto de regras altamente complexas, que eu gosto, mas tento também ajudar a transformar esse meu pré-conceito num apoiante de uma revolução para uma melhor sociedade.

Qual é o seu maior desafio agora?
O caminho que eu tenho tentado fazer é não só tornar Portugal um hub de produção de canábis para fora, mas também fazer com que Portugal consiga beber desta nova revolução, dando acesso a quem vive em Portugal a este tipo de medicamentos, de produtos, de alternativa para a saúde.

“O mercado específico da canábis tem um gostinho diferente. Os meus olhos brilham, mexe mais comigo, tem um propósito maior do que apenas o profissional ou financeiro das coisas.”

A canábis não foi só mais uma área de negócio para si, como seria outra coisa qualquer? Ou esta entrega também acontece noutras áreas?
Eu confesso que sou sempre um entusiasta. Vou-te explicar como é que escolhi o meu curso: eu sou formado em engenharia de produção, aqui em Portugal diz-se um engenheiro industrial. Este engenheiro tem a capacidade de ajudar qualquer tipo de indústria, seja um hospital, em que entra um doente e sai uma pessoa saudável, ou os maiores produtores de ovos, que são nossos clientes cá, onde entra uma galinha e saem ovos, ou entram parafusos e metais e sai uma bicicleta. Isto é algo que sempre me despertou muito. Utilizar o software para ajudar essas indústrias, seja onde for, foi o que escolhi para o percurso profissional da minha vida. No entanto, o mercado específico da canábis tem um gostinho diferente. Os meus olhos brilham, mexe mais comigo, tem um propósito maior do que apenas o profissional ou financeiro das coisas. Nós já tínhamos clientes farmacêuticos em Portugal, farmacêuticas tradicionais, que são compliant e trazem saúde, mas sinto que o desafio e o propósito da canábis é diferente. É uma coisa diferente…

Tem também um certo factor de inovação, não é?
Exactamente, porque também é um desafio, porque utilizamos as nossas melhores práticas agrícolas. Temos clientes da área vitivinícola em Portugal, que produzem os melhores vinhos, tal como temos outras indústrias alimentares, como a plantação de kiwi e outras coisas. E temos as farmacêuticas, coisas altamente laboratoriais, controladas, mas agora como é que vamos fazer um laboratório ou um controlo dentro da agricultura, dentro de uma planta que já sabemos que existem milhares de espécies, que cada uma tem centenas de princípios activos… Ainda estamos no CBD ou no THC e ainda há tanto por descobrir… Temos que ter sistemas que nos permitam fazer todo esse controlo, mas também que gerar pesquisa e informação que dê credibilidade aos produtos, logo a tecnologia é uma peça muito importante para que esse mercado consiga crescer.

E como foi o processo de começar a trabalhar numa área tão diferente daquelas a que estava habituado?
A gente teve que partir muita pedra desde os primeiros projectos. Havia um desconhecimento da legislação e das próprias autoridades que a fazem, mas hoje, felizmente, fruto do trabalho que fizeram e da informação, de sensibilizar a sociedade, os médicos… E depois há os fornecedores, seja de máquinas, seja de estufas, até mesmo do controlo de pragas. Na última PTMC conheci um especialista em controlo de pragas que trabalha com bichinhos, que foi chamado para ir para a uma plantação de canábis, e quando chegou lá disse: “Eu estou acostumado com tomate, mirtilos, e mais não sei o quê… agora essas plantas… vamos ver qual é o bicho!” Tudo faz parte de uma jornada e eu acho engraçado fazer parte desta dream team, de participar nesta descoberta, é muito bom.

“Quando as primeiras empresas de canábis concorreram a uma licença em Portugal não existia um software de gestão integrado para responder ao compliance do Infarmed.”

É estimulante?
É… E depois é giro, porque vamos fazendo um trabalho comercial, mas já lá vão quase cinco anos e fico muito contente de trabalhar com os primeiros players que se instalaram aqui e que estão a vingar, que já estão a produzir e a exportar, e que eu acompanho desde que eles ainda nem tinham o terreno! E pronto, sinto fazer parte desta jornada.

E desta família?
Sim, desta família!

Quantos clientes é que tem em Portugal e quantos são especificamente da área da canábis?
Enquanto grupo temos dois mil clientes espalhados no mundo inteiro. Dentro do universo da widepartner, da Sage, temos cerca de 300. Dentro desses 300, penso que não chegamos a 4% de clientes na indústria da canábis, só que 80% do nosso negócio está em torno de 70 clientes. Ou seja, nós estamos a caminhar hoje para cerca de 10% dos clientes de um determinado segmento de mercado, e os da canábis já têm um certo peso. Estamos quase com uma dezena de clientes dedicados apenas à canábis, com empresas já certificadas, o que já é um número considerável. Outra coisa interessante que diferencia este sector de outro qualquer é que houve, este ano, uma alteração na legislação onde se incluiu a palavra ‘electronicamente’. Quando as primeiras empresas de canábis concorreram a uma licença em Portugal não existia um software de gestão integrado para responder ao compliance do Infarmed. Muitas resolveram o problema manualmente, porque não tinham ainda soluções no mercado que respondessem ao compliance da canábis e às suas necessidades. O ‘electronicamente’ da nova legislação vai de encontro a tudo o que tem a ver com a rastreabilidade, os controlos de qualidade, os controlos de acesso, tudo deve ser feito de forma electrónica.

Isso jogou a seu favor! 
Pronto… (risos) Eu não posso dizer que é uma coisa chata para o mercado, porque vai exigir um maior rigor, mas para mim claro que foi bom. O que tem acontecido é que essas empresas que já têm licença do Infarmed estão a converter-se para o ‘electronicamente’. Mas o que é interessante é que há empresas que já nasceram electronicamente compliance, com o nosso software, o que é um termo um bocado diferente. Eu tenho empresas que estão em processo de implementação, tenho outras que estão em processo de negociação, mas não posso dizer quais são. Mas há muitas outras que estão no caminho para chegar aqui também, então, até que não é mau. (risos)

Entrevistámos Fabrício Nobre no escritório de Lisboa da widepartner e oferecemos-lhe uma caneca do Cannareporter. Foto: Laura Ramos

Se tiver que pensar nos seus objectivos de futuro, quais são?
Os meus objectivos na área da canábis é conseguir colocar a bandeira de Portugal como o hub a nível europeu. Esse é um primeiro objectivo, porque destronar o mercado norte-americano, Canadá e Europa enquanto produtores é difícil, mas eu acho que o medicinal tem condições, porque no mercado americano e canadiano a legislação é diferenciada. A distinção entre farmacêutico e não-farmacêutico, como eles têm, muito no mercado recreativo. Ou seja, eles têm muitos produtores, mas temos clientes que vieram dos Estados Unidos para cá trabalhar connosco, porque somos muito mais exigentes. Então, o meu primeiro objectivo é, realmente, conseguir ajudar todo esse ecossistema, erguer a bandeira de Portugal e crescer cada vez mais a nível da Europa. Depois, é tentar partilhar esse know-how com outras regiões em que já estamos. Quando o mercado de Espanha estiver mais maduro para a canábis, quando o mercado de França estiver mais aberto, quando o mercado do Brasil estiver mais forte a nível de legislação, é tentar também ajudar as empresas nesses mercados, facilitar o crescimento desses clientes nessa jornada.

E também já antevê os potenciais clientes com a legalização do uso adulto?
Quando você sabe que existem mais de 80 pré-licenças concedidas pelo Infarmed para plantar canábis, você põe-se a pensar: “Para quem é que essas empresas todas vão produzir? Para onde é que vai isso tudo?” Eu hoje ainda vejo com alguma incógnita de que maneira o caminho vai seguir, mas tenho um feeling que vai ser tudo muito ligado ao canal de distribuição mais farmacêutico, mesmo que seja como uso recreativo. Isto vai fazer com que haja mais empresas, mas, ao mesmo tempo, o diferencial que a empresa vai ter no mercado é se ela vai seguir um caminho estritamente farmacêutico ou não. Porque há aquele limbo, não é, se é CBD, se é óleo, se é suplemento, se é medicamento, se é medicinal ou recreativo, se vou poder ter uma plantinha na minha casa… então ainda há essa indefinição, mas eu acredito que a maneira controlada vai ser muito pelo caminho médico. De qualquer forma, as empresas têm que ter esse controlo sistémico muito grande para responder a exigências impostas, mas, ao mesmo tempo, elas tornam-se muito mais eficientes, logo mais rentáveis. Acho que o futuro é próspero.

E objectivos a nível pessoal, agora que já tem o Porsche na garagem… 
Não, mas isso… (risos) Já está mais do que estacionado, isso não interessa grande coisa… O meu grande foco hoje, e por ter mudado um pouquinho o meu percurso para estar assim, mais junto de um grupo e de uma outra estrutura, era para poder ter mais momentos de pausa, reais momentos de pausa. Pela primeira vez nos últimos 14 anos, tirei três semanas de férias, no ano passado. Três semanas de férias em que realmente desliguei e não olhei para o computador.

“Gosto muito do meu trabalho, mas o meu propósito tem a ver com ter mais tempo para a minha família e também devolver um pouquinho o que recebi para a sociedade.”

Conseguiu mesmo fazer isso?
Consegui! Mas isto não significa que, ao longo dos anos, eu não ia para casa, as minhas filhas não me viram ou que eu trabalhava demais. Gosto muito do meu trabalho, mas o meu propósito tem a ver com ter mais tempo para a minha família e também devolver um pouquinho o que recebi para a sociedade. E eu acho que pegar neste tema da canábis é a minha forma de tentar ajudar a levantar a bandeira, porque até o meu pai me disse, meio em tom de brincadeira: “Fabrício, pá, você depois de tantos anos… nunca bebeu e agora vai ficar nesse mundo das drogas?”, o que remete para uma forma pejorativa das coisas. Acho que é um pouquinho isto, porque eu não tenho ambições de… de…

 … de ter o Lamborghini, não é? (risos)
Não, mas por acaso o desktop do meu computador é a foto de um Lamborghini! (risos) Por acaso gostava de ter um Lamborghini, só porque sim, mas um antigo, um velho, assim como o meu Porschezinho, velhinho também… Em 45 anos aprendi uma coisa com a minha mulher, que o sol nos ilumina na nossa vida. O sol nasce aqui e vai-se pôr aqui atrás. E se nós estamos de frente para o sol, o sol está a iluminar-nos, está a fazer-nos crescer, está a dar-nos energia e a mostrar um caminho. Quando o caminho está iluminado, o sol chega aqui em cima e já vai começar a pôr-se, não é? Então está na altura de começar a devolver essa luz… Parece uma coisa assim meio fantochada, mas é o que eu sinto, que estou cada vez mais preocupado com essa outra jornada, que é conseguir ajudar no processo de crescimento das minhas filhas, estar mais próximo do caminho delas e tentar mostrar-lhes os valores que devem ter em conta, para além das questões pessoais e profissionais. E se, lá na frente, eu vir Portugal no hub do mundo da canábis e se forem os meus clientes e reconhecerem o meu trabalho, então vou sentir que a minha missão foi cumprida. E quando souber que uma criança autista, ou uma criança com epilepsia, ou uma pessoa que sofreu um acidente, conseguiu ir à farmácia e obter canábis, ou uma pessoa que achava que a canábis era só uma droga que servia para apagar a mente, mudou de ideia… então, vou achar que fiz alguma coisa. (risos) Acho que é um bocado por aí.

E Portugal, continua no seu coração?
Sim, sim, sim… Portugal vai ser sempre… a gente nunca sabe o que o futuro nos traz, não é? Ou seja, os meus pais e a minha família estão no Brasil, mas esta foi a minha opção e tenho muito a agradecer a Portugal e aos portugueses. Quando vim para cá não tinha amigos nenhuns e consegui estabelecer boas amizades aqui, as pessoas sempre me trataram muito bem, pessoalmente e profissionalmente, então só tenho que agradecer e devolver.

Então, depois, de tudo isto, o Fabrício agora é um português com sotaque brasileiro?
Sim, mas eu sou apátrida, porque, quando vou ao Brasil com a minha mulher e as minhas três filhas, vamos às lojas e acham que sou turista, perguntam-me se estou a gostar do Rio de Janeiro (risos)… Eu uso muitas terminologias portuguesas e tenho que me lembrar de desligar o chip e falar brasileiro. E o mesmo aqui. Ou seja, eu aqui sou brasileiro e no Brasil sou português. Então, já sou assim um cara sem pátria.

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