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Reportagem

Marrocos: O Haxixe e o Rif, ontem e hoje

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Haxixe no Rif, em Marrocos. Foto: D.R.

Falar de haxixe é sinónimo de falar de Marrocos. Das plantações de canábis localizadas na cordilheira do Rif, no norte do país, é extraído a maioria do haxixe consumido na Europa. Marrocos é o maior produtor de haxixe do mundo e quase dois milhões dos seus habitantes dependem do cultivo de canábis.

A canábis chegou ao Rif no século VII d.C., com a emigração da população árabe para o Norte de África. A canábis desenvolveu-se bem no clima frio e seco desta cadeia montanhosa e o seu consumo criou fortes raízes no norte de Marrocos. No entanto, não houve autorização oficial para o cultivo até ao século XIX, quando o Sultão Mulay Hassan o permitiu a cinco tribos do Rif. Em 1956 Marrocos obteve a independência de França e Espanha e foi então que o rei Muhammed V proibiu o cultivo e o comércio de canábis, embora, na prática, tenha continuado a ser permitido em certas zonas do Rif, de modo a evitar conflitos.

Haxixe de Marrocos. Foto: Simón Pardo

A forma tradicional de consumir canábis nesta área é fumando kif, uma mistura de flores, folhas e caules de canábis misturadas com folhas de tabaco local chamado Taba. Esta mistura bem seca e triturada é colocada no pequeno recipiente do cachimbo tradicional, o Sebsi. O conteúdo é fumado em apenas uma ou duas cachimbadas e as cinzas são esvaziadas soprando-as para fora do cachimbo, uma técnica que requer considerável habilidade. É bastante comum ver homens velhos sentados em grupos à volta de uma mesa em cafés ou hotéis no Rif, apreciando o kif, que, embora possa parecer uma mistura suave no início, consegue produzir um efeito forte depois de cinco ou seis passas.

Estima-se que haja entre 300 a 400 mil famílias envolvidas no cultivo e processamento de canábis no Rif.

Ao contrário da crença popular, a cultura do haxixe é um fenómeno bastante recente em Marrocos, em comparação com países como o Líbano ou o Afeganistão. Foi na segunda metade do século XX que os estrangeiros trouxeram para Marrocos as técnicas de peneiração de tricomas, de modo a produzir haxixe. Estes viajantes, pertencentes à contracultura nascida no início da década de 1970, viram interesse em viajar para países distantes, longe da cultura ocidental, em busca de experiências alternativas e exóticas. Muitos seguiram rotas que incluíam países como a Índia, Nepal, Afeganistão ou Líbano, onde o haxixe era produzido de uma forma tradicional. Aprenderam estas técnicas para peneirar os tricomas e importaram-nas para Marrocos quando o visitaram. Até então, o cultivo da canábis tinha sido exclusivamente para a produção de kif e, a partir desse momento, o haxixe e a forte procura deste produto na Europa e no resto do mundo causaram um aumento sem precedentes no cultivo da canábis em Marrocos.

Cultivo tradicional VS cultivo modernizado

O cultivo tradicional da canábis em Marrocos é bastante simples. As sementes da colheita anterior são lançadas no solo em grandes quantidades, para assegurar uma germinação suficiente, de modo a preencher todo o espaço com plantas. Estas crescem sem controlo, sem espaço entre elas e sem distinção entre plantas masculinas e femininas. Esta falta de selecção leva a uma polinização massiva, causando uma produção de menor qualidade.

O solo de cultivo, normalmente, não é preparado de antemão, nem são adicionados nutrientes à irrigação, apenas são utilizados aspersores elevados, de forma a que a rega seja feita por cima das cabeças das plantas, com água da chuva recolhida em tanques. Quando as plantas estão prontas para serem colhidas, são cortadas e empilhadas em telhados ou pátios para secarem ao sol. Este método ainda é utilizado em muitas plantações, mas está gradualmente a ser substituído pela secagem à sombra, de modo a preservar os terpenos e a evitar a degradação dos canabinóides, resultando num haxixe muito mais aromático e menos narcótico. 

Tambores de Ketama. Foto: Abdeljalil Bounhar, AP

Após a secagem, começa o processo de extracção do haxixe. A técnica utilizada é surpreendentemente simples. A eficácia e habilidade com que estas pessoas a dominam demonstra que foi aperfeiçoada e trabalhada até à exaustão. O recipiente no qual o pólen das flores é recolhido é um balde de plástico, o típico utilizado para lavar a roupa. Colocam uma rede de nylon por cima deste balde e amarram-na, de modo a ficar muito apertada. As plantas secas são despojadas dos seus ramos, deixando apenas folhas e flores, e estas são colocadas em cima da malha esticada. Tudo isto é coberto com um espesso plástico e o processo de extracção começa. Com dois paus de madeira nas mãos, os artesãos de haxixe batem em cima do plástico grosso, num ritmo contínuo, para que as cabeças e os tricomas, ou pólen, passem através da malha e sejam recolhidas no balde. O som produzido por este processo é muito particular e muitos viajantes são hipnotizados pelos chamados “tambores de Ketama”, que têm o nome de uma das principais cidades do Rif onde se produz haxixe.

Do primeiro lote de batidas suaves vem a melhor qualidade, com menores impurezas, conhecida como “zero zero”. Esta foi a qualidade que causou um tremendo sucesso na Europa, nas últimas décadas. Embora seja a melhor, é a menos produtiva de todas. As seguintes extracções produzem maior quantidade, mas contêm mais matéria vegetal e mais impurezas. 

Depois de todo o pólen ter sido extraído das plantas, ele é cuidadosamente recolhido e processado. Dependendo da qualidade do produto e da forma como o haxixe deve ser transportado, é trabalhado de diferentes maneiras. Normalmente, é trabalhado em prensas, para formar as famosas placas, ou à mão, para lhe dar a forma de uma “bolota” ou de um “ovo”. O processo de trabalhar o haxixe permite uma melhor conservação do produto.

Este processo tradicional de extracção está a sofrer uma modernização sem precedentes em Marrocos. Isto está a acontecer graças ao facto de muitos marroquinos terem aberto as suas casas aos europeus, que vieram para este país trazendo novas genéticas e novas técnicas de extracção, o que deu origem, de um ponto de vista positivo, a um número infinito de novos tipos e qualidades de haxixe. Por outro lado, as plantas nativas (“landraces” em Inglês ou “beldi” em dialeto Marroquino) foram-se perdendo, devido à impossibilidade de controlar os cruzamentos genéticos com as novas linhagens introduzidas recentemente.

Para além das genéticas, novas técnicas de cultivo estão a ser assimiladas pelos produtores marroquinos. As sementes utilizadas são escolhidas pela sua estirpe e são geralmente feminizadas ou, se não forem, os machos são retirados uma vez detectados, para evitar a formação de sementes (na medida do possível, pois a polinização cruzada de outras plantações não pode ser evitada). As plantas são cultivadas com espaço entre elas, para que possam crescer com boa lateralidade, aumentando a produção. Além disso, são normalmente adicionados nutrientes ao solo ou na irrigação, que é feita por gota-a-gota, para garantir que todas as plantas recebem uma boa quantidade de água.

Plantação de canábis no Rif, em Marrocos. Foto: Simón Pardo

A secagem das plantas não é feita ao sol, mas à sombra, em barracões de secagem ou em áreas adaptadas, para, tal como já referimos, preservar melhor os aromas e evitar a degradação dos canabinóides. Para obter haxixe de qualidade superior, estas quintas utilizam filtros de diferentes tamanhos, fabricados especificamente para este fim, geralmente entre 200µ a 25µ. O produto obtido é filtrado várias vezes, de modo a obter um haxixe cada vez mais limpo e especial.

Estas plantações decidiram seguir o caminho da modernização, com os seus prós e contras, devido à demanda mundial de produtos com um nível de THC muito elevado, com aromas e texturas específicas. Tudo isto é devido ao facto de um grande número de países terem optado pela regulamentação da canábis, permitindo a abertura de portas à investigação e à inovação de técnicas de produção, de uma qualidade nunca antes vista, elevando assim os padrões mundiais.

Situação actual, Tráfico, Legalidade e Sociedade

Estima-se que haja entre 300 a 400 mil famílias envolvidas no cultivo e processamento de canábis no Rif. Dos cinco milhões de habitantes desta área, cerca de dois milhões dependem directamente do cultivo desta planta. Todas estas pessoas conseguem levar a cabo esta actividade graças à permissividade das autoridades, que a toleram, embora seja classificada como crime no código penal marroquino. O tráfico de haxixe é uma realidade do dia-a-dia no norte de Marrocos. As toneladas de haxixe produzidas no Rif são transportadas para a Europa através de diferentes rotas, quase todas marítimas, através do Estreito de Gibraltar. Os barcos insufláveis rápidos com motores potentes e esconderijos em grandes camiões ou navios comerciais são os métodos preferidos dos envolvidos neste negócio arriscado.

O processo tradicional de extracção está a sofrer uma modernização sem precedentes em Marrocos.

Quanto ao governo, efectua anualmente rusgas simbólicas, em que as plantações são destruídas e os menos afortunados, geralmente aqueles que não têm dinheiro suficiente para subornar as autoridades, são presos. Ao mesmo tempo, o governo lança campanhas, oferecendo outros tipos de cultura como alternativa ao cultivo da canábis, embora, até à data, nenhuma destas ofertas possa realmente significar um verdadeiro meio de subsistência para todas as famílias que ganham a vida com o haxixe.

O Rif é uma zona empobrecida, com poucos recursos económicos para além da agricultura. O povo vive numa eterna crise económica, agravada pelo desinteresse histórico do governo marroquino em melhorar as condições de vida dos habitantes da zona. Os conflitos têm sido muito frequentes ao longo da história, com revoltas e protestos contra o sistema semi-feudal no qual se encontram. Os grandes senhores da droga e os governantes são os que controlam e distribuem a riqueza, sempre a seu favor e dando poucas oportunidades aos habitantes de escaparem à precariedade.

Recentemente, o parlamento marroquino aprovou um projecto de lei para legalizar o cultivo e a comercialização de canábis para uso medicinal e industrial. À primeira vista, isto pode parecer uma solução para o problema da pobreza que caracteriza o Rif e para o problema do tráfico de droga, que facilita o aumento de poder de máfias nestas áreas. No entanto, com uma análise mais atenta do novo projecto legislativo, é fácil de compreender que não é este o caso. Se não houver uma mudança drástica na direcção que a regulamentação da canábis está a tomar em Marrocos, o poder e o dinheiro gerado pelo cultivo passará das mãos dos poderosos senhores do haxixe para as dos grandes empresários, deixando os agricultores locais de fora.

O Rif tem sido, tradicionalmente, discriminado pelo governo marroquino e este novo projecto de lei é um sinal de que nada mudou. Foi criado um plano para regular este mercado, sem primeiro perguntar aos principais interessados, os agricultores. Este constitui um grande risco para os mesmos, que podem ser relegados para segundo plano, como meros empregados de grandes empresas multinacionais, que retiram o capital de onde nunca deveria sair, o Rif.
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Esta reportagem foi originalmente publicada na edição #4 da Cannadouro Magazine

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