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Entrevistas

César Cardoso: “Construir em cânhamo é uma verdadeira alternativa verde”

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Estimular a inovação na arquitectura moderna, recorrendo a materiais naturais ou reciclados, de baixo impacto ambiental, é  uma das prioridades da Natura Matéria, uma spin off da Universidade do Minho, fundada em 2021 pelo Engenheiro Civil César Cardoso. Falámos com César para perceber em que medida o cânhamo se pode integrar nestas novas maneiras de construir, mais eficientes e sustentáveis.

Engenheiro Civil com um Mestrado em Gestão, Tecnologia e Física das Construções pela Universidade do Minho, César trabalhou vários anos como assistente convidado no Mestrado em Construções e Reabilitações Sustentáveis, tendo mais tarde colaborado com a empresa de arquitectura SKREI. Procurando criar e apoiar o desenvolvimento de novos materiais e técnicas construtivas sustentáveis para as empresas do sector da construção. A Natura Matéria presta serviços de consultoria e comercializa produtos para a construção que respeitem as novas exigências do mercado em termos de sustentabilidade, baseadas no conceito de economia circular e habitação saudável.

Quando e por que é que começou a trabalhar com o cânhamo?
Em 2006, quando a minha companheira Rute Eires terminou a sua tese de mestrado no tema “Materiais Não Convencionais para uma Construção Sustentável Utilizando Cânhamo, Pasta de Papel e Cortiça” na Universidade do Minho. Mais tarde, em 2009, produzimos alguns protótipos de adobe aligeirado com aparas de cânhamo, que apresentámos numa conferência e feira em Serpa, mas foi em 2017, como colaborador na empresa de arquitectura – SKREI, enquanto responsável pelo desenvolvimento e produção de blocos de cânhamo, que desenvolvi blocos para a primeira construção nacional de alvenaria não estrutural com incorporação de aparas de cânhamo. Em 2020 foi concluído este primeiro edifício em alvenaria de betão de cânhamo, na Rua do Paraíso 331, no Porto, e mais tarde foi realizada uma construção temporária com um bloco idêntico, mas aditivado com carvão, que ficou patente até ao final de Fevereiro de 2021 no Centro Internacional das Artes, em Guimarães. 

César foi responsável pela reconstrução de um moinho de água em pedra, madeira e betão de cânhamo, em Guimarães. Foto: Natura Matéria

Que trabalho e/ou investigação tem estado a desenvolver com o cânhamo?
No âmbito do cânhamo estou a prestar consultoria a empresas nacionais para aplicação do betão de cânhamo em diferentes formatos de pré-fabricação, blocos, painéis estruturais e autoportantes. Estou a trabalhar na reconstrução de um moinho de água, em Guimarães, em madeira e betão de cânhamo. Depois de uma série de ensaios iniciais de caracterização foi seleccionada uma mistura com incorporação de resíduos industriais fibrosos e cal hidratada, sem ligantes hidráulicos. No âmbito da investigação e desenvolvimento, fundei, em 2021, a Natura Matéria, uma spinoff da Universidade do Minho. A prioridade é estimular uma cultura de inovação na arquitetura moderna, ao nível dos projectos e das obras, recorrendo a materiais naturais ou reciclados, de baixo impacto ambiental. Pretende-se também ser um elo de ligação entre Investigação e Desenvolvimento (I&D) nas Universidades, Indústrias e projectistas, para criar e apoiar o desenvolvimento de novos materiais e técnicas construtivas com baixo impacto no ambiente.

A nível de construção, quais são as principais vantagens deste material?
As suas propriedades isolantes e acústicas permitem que seja aplicado como material de isolamento em paredes, coberturas e pisos. Em termos ambientais, as lascas ou aparas de cânhamo juntamente com a cal, permitem um balanço negativo de CO2, permitindo construir com “Carbono Zero”. Para além da vantagem ambiental e das múltiplas aplicações do betão de cânhamo, este possui uma alta permeabilidade ao vapor (higroscópico), autorregulação passiva de temperatura e humidade, pode ser usado com uma estrutura integrada de madeira, aço ou betão armado. Apresenta ainda baixa densidade, resistência ao fogo, conforto e amortização de ruídos interiores e exteriores. Para a durabilidade de construções, este produto exige um conhecimento das matérias-primas e das suas propriedades, sensibilidade à água, tempos de cura, etc. 

Qual é o custo estimado para a construção de uma casa de ± 50 m2 em cânhamo?
O custo para a construção pode ficar 5 a 10% acima do valor para uma construção tradicional ou até menos. Essa economia de custo pode ser alcançada com a participação de um profissional qualificado, para orientar quer na fase de projecto quer na fase de obra.   

Em termos comparativos, construir em cânhamo compensa em relação às casas tradicionais? Porquê?
Construir em cânhamo é uma verdadeira alternativa verde. Comparativamente à construção convencional, para aplicações em paredes exteriores, a solução construtiva à base de cânhamo dispensa a aplicação de isolamento térmico e com isso argamassas de colagem, rede de reforço, acessórios de fixação, argamassas de acabamento em parte formuladas com adição de cimento, etc. Para além disso, em zonas secas de uma habitação, como quartos e salas, por questões estéticas o betão de cânhamo pode ficar aparente, dispensando um custo extra com argamassas e pinturas. O nível de conforto térmico e acústico é superior, o que vai representar uma redução de gastos energéticos a longo prazo. 

Em Portugal, já é possível fazer construção em cânhamo? Como faz para arranjar o cânhamo?
Sim, é possível e já existem algumas construções. Actualmente, e para grandes quantidades, as aparas de cânhamo e a matéria-prima para o betão de cânhamo ainda têm que ser importadas.

Quais são os principais desafios deste sector na conjuntura actual?
Massificação da cultura do cânhamo industrial em Portugal, com processamento do cânhamo cultivado em Portugal para obtenção de aparas e fibras de qualidade que se possam utilizar na construção e a um preço competitivo. 

Que recomendações daria ao nosso governo, tendo em conta os desafios da sustentabilidade que se colocam hoje em dia?
Assegurar e incentivar como medida, não só de sustentabilidade ambiental, mas também económica e social, que mais pequenos produtores cultivem e processem o cânhamo, para que possa ser usado depois na construção.
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Esta reportagem foi originalmente publicada na edição #4 da Cannadouro Magazine

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