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Portugal: Mãe e bebé retidas no Hospital de Cascais por suspeita de uso de canábis

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Uma mãe e a sua bebé recém-nascida estão retidas no Hospital de Cascais, porque a equipa médica que as atendeu no pós-parto suspeitou da utilização de canábis durante a gravidez. A denúncia foi feita ontem ao Cannareporter por Marcos Lana, pai da bebé, que acusou a equipa médica e de enfermagem de “retaliação”. A GNR – Guarda Nacional Republicana e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) foram chamadas ao local e o caso já está no Ministério Público. “Se soubesse que a minha mulher e a minha filha iam ficar reféns do hospital, não tinha assinado”.

Isabella Burgos, 25 anos, disse ao Cannareporter que nem nos seus “piores sonhos e pesadelos” poderia imaginar tudo o que lhe está a acontecer. “É surreal. Parece cena de novela ou sei lá”.

Fotógrafa e residente em Massamá, entrou em trabalho de parto na noite do dia 10 de Agosto. Às 10:40 da manhã nasceu a bebé, Tereza, no Hospital Dr. José de Almeida, em Cascais, de parto natural. O pai, Marcos Lana, de 34 anos, descreveu o parto como o momento mais feliz da sua vida: “Fomos para uma sala onde duas pessoas maravilhosas nos atenderam, foi um parto incrível, a Isabella nem precisou de anestesia e foi tudo super emocionante. Foi o momento mais feliz da minha vida, correu tudo muito bem”, congratulou-se. Isabella confirmou: “No meu parto foi tudo perfeito. As parteiras foram fabulosas, cuidaram muito bem de mim”, contou ao Cannareporter.

Os problemas começaram algumas horas depois, quando subiram ao 5º andar, para se instalarem no quarto onde seriam assistidos durante o pós-parto. De acordo com o pai, os médicos não gostaram muito do facto de eles terem recusado a administração da vacina da tosse convulsa na bebé. Marcos explicou que se informaram sobre os benefícios e desvantagens da vacina e que preferiram não a dar.

A mãe, Isabella Burgos, com a bebé recém-nascida, Tereza, no Hospital de Cascais.

Mãe e bebé terão sido também visitadas pelos médico pediatras de serviço. De acordo com Isabella, um profissional de saúde ter-lhe-á dito que tinha lido no processo que ela fumava canábis e alertou-a que o leite materno de quem utilizava THC continha “uma gordura que subia ao cérebro do bebé e provocava morte súbita”.

A discussão piorou quando uma enfermeira terá vindo buscar a recém-nascida para fazer um teste. O pai contou ao Cannareporter que perguntou qual era o teste e a enfermeira não soube responder. Pediu que o teste fosse feito ali, à frente dos pais, ou então que permitisse que ele a acompanhasse, algo que a enfermeira negou. Marcos diz que, então, tentaram mandá-lo embora, alegadamente porque iria terminar o horário das visitas, ao que ele terá respondido que não era um visitante, mas sim “o pai e acompanhante” e que teria direito a estar ali. Exigiu que lhes mostrassem a lei que o impedia de acompanhar a mulher e a filha no pós-parto, mas ninguém lhe mostrou nada.

A partir daí a situação escalou e o Hospital chamou a GNR e uma assistente social ao local. Marcos contou ainda que, entretanto, a mulher que ocupava a segunda cama do mesmo quarto, com outro bebé, já tinha sido mudada para outro quarto. Inicialmente, a assistente social terá dito a Marcos que tinha sido chamada por causa do seu “comportamento agressivo”, mas depois “disse que foi porque a Isabella contou numa consulta que fumava canábis”.

Marcos clarificou que essa informação só foi dada dada no Centro de Saúde da Parede, durante a primeira consulta de gravidez de Isabella. “O único momento em que falámos disso foi na primeira consulta, quando soubemos que a Isabella estava grávida. Perguntaram sobre o consumo de substâncias e ela informou, abertamente, que de vez em quando fumava canábis. Mas isso só aconteceu até ela saber que estava grávida, a partir desse momento nunca mais fumou”, garantiu.

O pai diz que foi aí que percebeu que tinham ido ao sistema à procura de qualquer coisa que pudessem usar contra eles. “Durante toda a gravidez ninguém se preocupou em perceber se a mãe fumava ou não nem ninguém pediu para fazer testes toxicológicos antes do parto, pegaram nisso porque estavam à procura de alguma coisa para criar todo este transtorno que nos estão a provocar agora”.

“Se soubesse que a minha mulher e a minha filha iam ficar reféns do hospital, não tinha assinado”

Quando a GNR chegou ao Hospital, “perguntou logo se eu tinha comigo alguma coisa ilegal e a assistente social ameaçou a minha mulher que lhe iam retirar a bebé”. Às 20 horas mudou o turno, chegou uma pediatra nova, “mais sensata e tranquila”, e chegaram mais quatro agentes da GNR. “Eu pedi um documento conforme não autorizava nenhum procedimento com a minha filha sem ser informado, mas a médica tentou acalmar-me, eu desisti do documento e fui para casa”.

Quando regressou, Marcos apercebeu-se que a filha tinha um colector de urina dentro da fralda. Entretanto, Isabella já tinha aceite que lhes fossem feitas análises toxicológicas. O resultado foi negativo e confirmado ao Cannareporter pelo Gabinete de Comunicação do Hospital de Cascais.

O Hospital Dr. José de Almeida, em Cascais. Foto: D.R.

“Aterrorizaram a mãe e coagiram-nos. Vieram duas assistentes sociais insistir para assinarmos uma autorização para investigarem a nossa vida e enviar para o Ministério Público. Assinei porque confiei naquelas pessoas e não tenho nada a esconder, que venham a minha casa para perceber que somos pais de verdade, que somos pessoas boas e que está tudo bem com a gente. Recolheram as nossas assinaturas e disseram que iam a nossa casa ontem à noite para verificar que estava tudo bem, mas não foram nem ligaram. Não me avisaram que se assinasse e desse autorização para ser investigado, a minha filha não ia sair do hospital. Se soubesse que a minha mulher e a minha filha iam ficar reféns do hospital, eu não tinha assinado!”, lamentou.

Marcos acrescentou que a mulher “fez o teste toxicológico para verem que não tinha nada e deixarem a gente ir embora em paz. Mas ninguém nos apresentou o resultado, nem mostrou nada, porque deve ter dado negativo. A minha mulher ligou-me hoje de manhã a chorar, porque lhe disseram que ela pode ir para casa, o médico deu-lhe alta, mas não deixam a minha filha sair. Está tudo bem com ela, mas não a deixam sair”, contou, com a voz embargada. Ao final do dia de hoje, Domingo, ambas continuavam internadas no Hospital de Cascais.

“Levaram-me a um ponto de exaustão mental e física. Só quero ir para casa!”

Isabella está a amamentar a filha exclusivamente com leite materno, mas teve de enfrentar as várias pessoas no Hospital que tentaram que não o fizesse.  “Os pediatras quiseram impedir-me de amamentar durante três horas, mas como tinha acabado de amamentar e o teste toxicológico demorava uma hora, disse-lhes que não seria necessário interromper a amamentação, porque o teste ia ser negativo. Mas houve vários episódios em que várias enfermeiras quiseram dar biberão com leite artificial, eu é que recusei sempre”.

Isabella conta que o pior momento que viveu no Hospital de Cascais foi quando a pediatra lhe comunicou que não podia dar alta à filha. “Foi péssimo, levou-me mesmo ao fundo. Estava cansada, stressada, quis assinar um termo de responsabilidade, mas não deixaram. Virei as costas e voltei para o quarto, a chorar. A médica comprometeu-se a voltar para nos dar alta, mas nunca mais apareceu e depois as assistentes sociais enganaram-me. Sabiam que se assinasse aquele papel eu ia ficar aqui presa com a minha filha e não me explicaram isso. Foi muito baixo!”, acusa.

Isabella diz que nem sequer a informaram do resultado negativo do teste toxicológico.  “Fui muito bem cuidada no parto, mas depois fui abandonada. Agora, aqui, ninguém sabe de nada, ninguém nos quer dizer nem dar nada. Passo o tempo sozinha no quarto, com a bebé, e a única coisa que quero é ir para casa. Se ficar com uma depressão pós-parto, foram eles que me levaram a um ponto extremo de exaustão mental e física. Foi uma tortura, senti-me violada quando soube que não podia ir para casa. Isto ultrapassou todos os direitos humanos. Espero que melhorem como humanos, porque de humanos não têm nada”, lastimou.

Hospital de Cascais diz que caso está nas mãos da CPCJ e confirma resultado negativo
Contactado pelo Cannareporter, o Gabinete de Comunicação do Hospital de Cascais confirmou a ocorrência, esclarecendo que não se pode pronunciar sobre esta questão, que é agora da responsabilidade da CPCJ.

O Hospital explicou ainda que só pode dar alta à bebé quando as assistentes sociais, o Ministério Público e a CPCJ confirmarem que está tudo bem e que estão reunidas as condições para a bebé voltar para casa. “Este procedimento é um pro-forma do Hospital sempre que está em causa a segurança de um bebé”, referiu o Gabinete, tendo confirmado que o resultado do teste de Isabella “foi negativo”.

No entanto, e uma vez que é fim–de-semana, só amanhã, segunda-feira, deverá haver notícias da assistente social que ficou encarregue do caso. O Cannareporter vai acompanhar esta situação, que não é inédita em Portugal. Pelo menos no Algarve e nas Caldas da Rainha já aconteceram casos semelhantes.

O que diz a ciência sobre canábis na gravidez
O sistema endocanabinóide (SEC) está envolvido em vários aspectos inerentes à reprodução humana, sendo um elemento importante no desenvolvimento de mecanismos associados à progressão de uma gravidez saudável, tal como já tínhamos explicado neste longo artigo publicado no Cannareporter.

A investigação científica comprova a importância do SEC na regulação da fertilização através da activação de espermatozóides, amadurecimento do ovócito, eclosão do embrião, maturação do óvulo, transporte pelo oviduto, implantação embrionária, desenvolvimento da placenta, manutenção da gravidez e trabalho de parto. No entanto, a evidência científica sobre os efeitos da canábis na gravidez é escassa, em grande parte porque a ética não permite realizar ensaios clínicos em grávidas.

Em 2020, uma revisão sistemática levada a cabo por investigadores da Columbia University, do New York State Psychiatric Institute e da Swinburne University, concluiu que “a totalidade das evidências sugere que a exposição pré-natal à canábis não leva a deficiências cognitivas”, não tendo encontrado diferenças estatisticamente significativas em bebés expostos a canábis durante a gravidez.

A canábis contém fitocanabinóides que modulam o Sistema Endocanabinóide e é necessária a realização de mais pesquisa focada no impacto que os fitocanabinóides, através da sua acção nos receptores de canabinóides, têm na fertilidade, no resultado da gravidez e na saúde fetal.

A literatura existente sobre os potenciais benefícios ou malefícios da canábis na gravidez é pouca e controversa. Por isso, como não existem dados suficientes que assegurem que não existem contra-indicações, não é recomendada a utilização de canabinóides durante a gravidez.

 

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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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