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Reino Unido: Canábis sintética “Spice” encontrada em vapes ilegais de adolescentes

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Foto: D.R.
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Uma investigação levada a cabo pelo Department of Life Sciences da Universidade de Bath, no Reino Unido, descobriu que um em cada seis vaporizadores (ou vapes) utilizados por adolescentes em escolas britânicas continha “Spice”, uma substância que contém um ou mais canabinóides sintéticos. A notícia foi avançada pelo jornal britânico The Guardian, que alertou para o “risco de danos graves” da droga sintética, que foi encontrada em 16.6% dos vaporizadores confiscados e em 28 das 38 escolas testadas.

A investigação foi feita pelo Department of Life Sciences da Universidade de Bath em parceria com as instituições de ensino, usando os dispositivos confiscados aos alunos durante o horário escolar em 38 escolas da zona de Londres, West Midlands, Manchester e South Yorkshire.

Dos 596 vaporizadores testados, 99 continham a substância sintética “Spike”, que no Reino Unido é conhecida como a “droga zombie”, devido ao estado em que os consumidores ficam após o uso. Um dos vapes testados continha heroína e apenas 1 em cada 100 – ou seja 5 – continham realmente o canabinóide natural THC. De acordo com o mesmo jornal, os investigadores pensam tratar-se de vaporizadores reutilizáveis (que permitem fazer o refill do óleo) de venda clandestina, e não de dispositivos de uso único.

Chris Pudney, professor de Bioquímica aplicada da universidade e responsável pelo estudo e pelos testes, admitiu ao The Guardian estar “chocado” com a alta percentagem: “é quase inacreditável!” Pudney confessou ainda que “esperávamos um número cerca de 10 vezes menor. Os vaporizadores testados foram recolhidos durante um dia normal de escola, não por causa dos professores, [apesar] de haver drogas neles, mas porque os vaporizadores não são permitidos nas escolas”, explicou. De acordo com o site da universidade, o estudo foi feito recorrendo ao primeiro dispositivo portátil que permite detectar quaisquer drogas sintéticas de imediato.

Tanto o cientista como alguns directores de escolas mostraram a sua preocupação com este resultado, alertando para o facto de este não ser um caso isolado ou que acontece em lugares longínquos: “isto é comum”, disse. “Sabemos que os adolescentes podem ter paragens cardiorrespiratórias quando fumam Spice e eu penso que alguns chegam muito perto da morte. Os directores dizem-me que os miúdos estão a colapsar nos corredores e acabam por ficar nos cuidados intensivos por períodos prolongados”, comenta o investigador, apelando ao diálogo aberto entre todas as partes.

O que é a Spice e o que pode provocar quando consumida?

A substância conhecida como Spice é uma espécie de mistura de ervas que contém um ou mais canabinóides sintéticos. Os canabinóides sintéticos são compostos produzidos em laboratório, que interagem com os receptores do sistema endocanabinóide humano de forma diferente dos naturais, ligando-se a eles de uma forma muito mais forte, podendo ser 10 a 100 vezes mais potentes que o THC. Por terem efeitos “fora do alvo”, alguns destes canabinóides sintéticos podem ser directamente tóxicos para o coração, o fígado ou os rins.

De acordo com a DEA norte-americana, a Spice – também encontrada sob o nome comercial de K2 – pode causar “taquicardias, aumento da pressão arterial, inconsciência, tremores, convulsões, vómitos, alucinações, agitação, ansiedade, palidez, adormecimento e sensação de formigueiro”.

A canábis sintética circula há quase 20 anos e sob o nome de Spice ou de K2 desde 2008. Esta substância, assim como outras que emulam drogas convencionais, começaram a aparecer nas smart shops ou lojas de “drogas legais” (legal highs) no início dos anos 2000, como alternativa às drogas ilícitas. No entanto, a polémica em volta destas substâncias sintéticas e os problemas de saúde que surgiram devido ao consumo não-controlado acabaram por levar à sua proibição em muitos países e à extinção dessas lojas. Hoje em dia continuam a ser vendidas em embalagens com nomes apelativos e, desde há uns tempos, também em líquidos para vaporizadores, através da internet ou de outros canais digitais.

Canabinóides sintéticos são perigosos e podem mesmo levar à morte

Tanto o Reino Unido como vários outros países já emitiram alertas sobre “a epidemia” do uso de vaporizadores entre os jovens e os riscos associados, bem como sobre o consumo deste tipo de substâncias sintéticas, cuja acção no organismo é muito diferente da que se verifica com os compostos não-sintetizados, como se explica neste artigo científico publicado em Junho deste ano no boletim Current Addiction Reports.

Recentemente, o neurologista e psicofarmacologista especializado em medicina canabinóide, Ethan Russo, deu uma entrevista ao CannaReporter®, onde alertou para a perigosidade dos canabinóides sintéticos, afirmando que podem mesmo provocar a morte.

“Os canabinóides sintéticos que têm estado disponíveis são, de um modo geral, o que eu chamo de agonistas completos do receptor CB1, em contraste com o THC. O THC é o que se chama um agonista parcial fraco, (…) enquanto que estes canabinóides sintéticos se ligam de modo extremamente forte [aos receptores] e por isso são o que eu chamo de agonistas totais. Muitas vezes podem ser 10 a 100 vezes mais potentes que o THC. Portanto, desde logo, isto é demasiado. Tal como um excesso de THC produz paranóia, ansiedade, ritmo cardíaco acelerado, estes são muito piores, porque não só afectam o receptor CB1, como também têm frequentemente aquilo a que se chama efeitos “fora do alvo”.  Alguns destes canabinóides sintéticos podem ser directamente tóxicos para o coração, o fígado ou os rins”, explicou.

O crescente uso de canabinóides sintéticos, muitas vezes confundidos com canábis natural, tanto pelos consumidores como pelo público em geral, põe de manifesto a necessidade de repensar a regulamentação das drogas mais usadas socialmente, de modo a evitar que os consumidores optem por este tipo de alternativas – em todos os casos, muito mais perniciosas do que as naturais – e possam ter acesso a produtos controlados, de qualidade e com a informação pertinente para o seu uso nas respectivas embalagens.

 

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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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Margarita é colaboradora permanente do CannaReporter desde a sua criação, em 2017, tendo antes colaborado com outros meios de comunicação especializados em canábis, como a revista Cáñamo (Espanha), a CannaDouro Magazine (Portugal) ou a Cannapress. Fez parte da equipa original da edição da Cânhamo portuguesa, no início dos anos 2000, e da organização da Marcha Global da Marijuana em Portugal entre 2007 e 2009.

Recentemente, publicou o livro “Canábis | Maldita e Maravilhosa” (Ed. Oficina do Livro / LeYA, 2024), dedicado a difundir a história da planta, a sua relação ancestral com o Ser Humano como matéria prima, enteógeno e droga recreativa, assim como o potencial infinito que ela guarda em termos medicinais, industriais e ambientais.

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