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Entrevistas

Renato Malcher: “Recreação é medicina. Quando nos sentimos felizes, estamos a automedicar-nos com o nosso sistema endocanabinóide”

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O neurocientista brasileiro, Renato Malcher Lopes. Foto: Laura Ramos | Cannareporter

O neurocientista Renato Malcher Lopes, professor na Universidade de Brasília, é um dos principais oradores da ExpoCannabis Brasil, que estreia amanhã, em São Paulo. No próximo Domingo, 17 de Setembro, Renato Malcher vai dar uma palestra no Fórum Internacional do evento, intitulada “Enfrentando o preconceito: A ciência no uso da canábis para fins medicinais”, onde falará sobre o seu interesse na exploração medicinal dos canabinóides, mais especificamente no tratamento do Autismo.

A ExpoCannabis Brasil chega a São Paulo pela primeira vez já este fim-de-semana, reunindo mais de 100 especialistas e autoridades de países como Brasil, Argentina, Estados Unidos da América, México, Paraguai e Uruguai. O evento conta ainda com mais de 140 expositores e espera receber cerca de 30.000 visitantes para ouvir mais de 100 oradores em diferentes áreas de especialização no sector da canábis.

Falámos com um desses oradores, o neurocientista Renato Malcher, para conhecer melhor o seu trabalho e a investigação que faz com canabinóides.

Enquanto neurocientista, qual tem sido o foco do seu trabalho nos últimos anos?
O meu interesse tem sido a exploração medicinal dos canabinóides – os produtos extraídos da canábis. Temos um artigo já publicado sobre o uso de extracto de canábis para o tratamento de autistas brasileiros e mais dois estudos onde varia, mais ou menos, a composição dos extractos. Um fazemos com o apoio de uma clínica particular e os pacientes desses médicos, na verdade, usam um produto produzido por associações de pacientes. Noutro projecto, com os companheiros do hospital da Universidade de Brasília, usámos uma fórmula da indústria. São duas comparações diferentes: um uso com uma formulação que não é tão rigorosamente bem definida e uma que é uma formulação de um produto farmacêutico, bem definido. Um deles tem uma proporção bem maior de CBD em relação ao THC e o dos grupos das famílias tem um pouco mais de THC, portanto estamos a explorar a comparação não apenas entre a formulação, mas também entre o estilo de uso. Por um lado, um uso mais controlado, mais bem definido em termos de dosagem e, por outro, um estilo de uso mais flexível, mais parecido com um uso fitoterapêutico. Além disso, com essa mesma clínica com que estamos a fazer o trabalho de autismo, também vamos fazer uma análise retrospectiva de outros tipos de doenças, como por exemplo, dor crónica, ansiedade, demência, Parkinson e Alzheimer. Vamos produzir os artigos a partir de relatos retrospectivos de pessoas que já fizeram o uso, vamos analisar o seu prontuário para fazer alguns testes com elas também e alguns questionários para enriquecer os dados. O maior foco do meu trabalho ultimamente tem sido esse.

Renato Malcher tem dedicado a sua pesquisa ao estudo do sistema endocanabinóide em patologias como o Autismo

Mas imagino que não tenha trabalhado sempre com canabinóides. Desde quando surgiu o interesse para esta pesquisa?
É muito interessante essa pergunta, porque eu fiz o meu doutoramento nos Estados Unidos e o objectivo do meu doutoramento era tentar entender o mecanismo que regula a produção de uma hormona chamada cortisol, que em níveis diários circadianos normais, serve para nos levar a comer. Ou seja, é uma hormona que estimula o apetite. Quando chega o horário do almoço e se começa a pensar em comida, a sentir o estômago a movimentar-se, é porque essa hormona está a subir. Mas esta hormona também é importante para situações de stress. Isso é muito interessante, porque, na natureza, quando um animal tem de comer, fica numa situação em que se expõe ao stress. Se ele é um herbívoro, por exemplo um coelho, tem que sair da toca em algum momento para comer e fica mais exposto do que quando está na toca. Se ele é um predador, vai ter que lutar para conseguir comer, então é interessante que a mesma hormona que leva o animal para uma situação potencial de stress, também é produzida em situações de stress. E por que é que ela é produzida nas duas situações? Porque tem um efeito no controlo das nossas reservas de energia. Quando acordamos de manhã, por exemplo, com fome, ainda não nos alimentámos, então a energia que vamos usar para ir buscar a comida é a energia da reserva que temos de glicose, de gordura. Por isso o cortisol, além de dar fome, ajuda a quebrar essa reserva, para dar energia até achar comida. Essa mesma função também é importante em qualquer stress, porque ele, de uma maneira geral, é uma situação em que, ou se precisa de lutar ou de fugir ou ainda de investir energia para combater micróbios pela inflamação. Então, o cortisol tem esse efeito inicial de estimular o processo do metabolismo, mas tem ainda um efeito de longo prazo, que funciona em ondas. A primeira onda é para ajudar no stress agudo, para lutar, para procurar comida, para usar os recursos energéticos do organismo. Mas depois tem efeitos que demoram mais a estabelecer-se, que são justamente para trazer o organismo de volta à normalidade, depois do stress. Por exemplo, reduzir a actividade do sistema imunitário, que é estimulado pelo stress; se se permanece com o sistema imunitário muito estimulado, começamos a atacar o próprio organismo. A inflamação é uma coisa que o nosso organismo usa para nos proteger, mas em excesso pode ser má. A Covid é um exemplo disso. O que geralmente causa os casos mais severos de Covid é precisamente o excesso de resposta do organismo a essa inflamação e há várias doenças que são inflamação crónica. Essa hormona é muito bem regulada, é produzida a partir de um sinal do nosso cérebro, numa região que se chama hipotálamo, onde há neurónios que libertam uma substância numa glândula que fica na parte de baixo do cérebro – a pituitária. Essa substância fá-lo libertar uma outra substância no sangue, e essa substância vai fazer com que as suprarrenais produzam o cortisol. O cortisol vai organizando tudo o que tem que fazer no organismo e depois volta a esse ponto inicial e diz “Não é preciso mais mandar-me ser produzido nas suprarrenais, porque eu já estou no nível certo”. Esse mecanismo, do cortisol a desligar esses neurónios iniciais, ninguém sabia como funcionava. Então, fomos investigar, no meu doutoramento, como parte de um projecto que já estava a ter no laboratório, como era esse mecanismo, e aí interessei-me pelo projecto e descobrimos que quem faz esse controlo são os canabinóides que o nosso próprio cérebro produz. O mecanismo de sair do stress depende de o cortisol voltar ao cérebro e mandá-lo produzir canabinóides e sabemos que esse mecanismo é importante para regular o próprio nível de cortisol, mas também o nível das hormonas da tiróide; os do crescimento também podem ser regulados assim, também é importante para regular a memória, as emoções, e para regular a motivação e prazer para obter as coisas. Por isso, esse mecanismo que liga a hormona cortisol com os endocanabinóides passou a ser muito interessante para compreender como o sistema endocanabinóide rege todos os aspectos importantes da nossa biologia, inclusive os emocionais, os aspectos cognitivos, os aspectos fisiológicos propriamente ditos, mediados por diversas hormonas.

“Os endocanabinóides servem para nos trazer de uma situação de “guerra” de volta à normalidade”

A que principais conclusões chegaram com a vossa pesquisa? 
Essa descoberta do nosso trabalho deixou muito claro o papel central dos endocanabinóides no controlo holístico de todos os processos biológicos que mantêm o bem-estar, funcionando em dois momentos-chave: funciona o dia inteiro para pequenas oscilações (por exemplo, quando estamos com fome para almoçar, aumenta o cortisol e aumentam os canabinóides no nosso cérebro, por isso é que as pessoas sentem fome quando fumam canábis, porque os canabinóides é que geram a nossa vontade de comer novamente) e também controla o retorno à normalidade após o stress (desligando os circuitos que activam a sensação de dor, de náusea, o sofrimento específico de ansiedade, de medo, de raiva, frustração). Os endocanabinóides servem para nos trazer de uma situação de “guerra” de volta à normalidade. O mecanismo de “ir para a guerra” é importante de vez em quando, mas não pode durar muito tempo, então os endocanabinóides vêm tentar tirar a pessoa dessa situação. E uma outra situação é o oposto, porque da mesma forma que nós precisamos, como animais, de um mecanismo que dedique todo o corpo a lidar com uma situação de vida ou morte (por exemplo, um predador vem perseguir-nos, alguém vai assaltar-nos, ou estamos numa luta por uma questão social, afectiva), tudo isso é muito importante para a nossa biologia e é um stress, e então temos reacções, aumenta a nossa adrenalina, aumenta a velocidade a que o nosso cérebro funciona, sentimos emoções próprias do antagonismo. Então, os endocanabinóides são bons para nos tirar disso, porque se durar por muito tempo é pior, mas também são importantes, porque precisamos de organizar o nosso cérebro, a nossa função biológica inteira, para tirar vantagens quando as coisas estão bem. Quando há abundância de comida, quando estamos com a nossa rede social bem estabelecida, quando temos abrigo, não temos sede e está tudo tranquilo, os canabinóides ajudam-nos a ter mais criatividade, a ter mais conexão social, a ter mais estímulo para tirar vantagem dessa situação, temos ímpeto para remodelar a casa, redecorar o “ninho”, procurar novos parceiros, se for o caso. Foi aí que começou o meu caminho para a canábis medicinal. Durante muito tempo não estudei nada relacionado especificamente com a planta. Estudei o que o nosso cérebro produz que é imitado pela planta.

Isso foi em que ano?
O meu doutoramento foi entre 2003 e 2006 e foi nessa altura que fizemos essas descobertas.

Nessa altura já se falava de endocanabinóides e já se tinha descoberto o sistema endocanabinóide.
Foi descoberto no final da década de 90 e publicámos isso no início dos anos 2000.

Mas quando começou a fazer o seu doutoramento, já sabia da existência dos endocanabinóides…
Sabíamos. Só não sabíamos que eles tinham alguma coisa a ver com o cortisol. Foi a primeira vez que foi mostrada a hormona a regular o endocanabinóide. A única regulação que se tinha era assim: se temos uma sinapse e ela fica muito activa, o neurónio que está a receber o sinal para ser activado produz endocanabinóides para voltarem para trás e dizer a esse neurónio “Pára, já entendi o recado.” É um feedback negativo. Então, esse é o mecanismo que consagrou a descoberta do sistema endocanabinóide como um sistema de regulação do fluxo de informação, para evitar que o fluxo se torne ruidoso, para ficar um fluxo limpo. Mas nós acabámos por descobrir que também existe uma relação directa de hormonas para produzir os endocanabinóides. Outra coisa curiosa que descobrimos é que temos um ciclo que é o ciclo jejum > apetite alto > alimento > saciedade > fome. Descobrimos que no centro do cérebro — que participa na regulação desse processo todo do metabolismo, da fome, do apetite e da adaptação ao stress e do controlo de várias hormonas, e que é uma coisa muito integrada, está tudo interligado como um reloginho —, por um lado, a hormona que estimula o apetite, que é o cortisol, causa a libertação de endocanabinóides no cérebro e isso articula todos os processos que levam o animal não só a comer, mas a sentir prazer a pensar na comida antes de a comer e a sentir prazer quando come; vimos essa conexão. Por outro lado, também descobrimos que há uma hormona que se chama leptina, que faz o contrário – ajuda a estabelecer a saciedade. E o que vimos é que, quando estamos em jejum, a leptina cai e o cortisol aumenta, logo aumenta o canabinóide, aumenta o apetite. Se a leptina aumenta, ela impede o cortisol de causar um aumento de endocanabinóides e, com isso, ela promove o estabelecimento da saciedade. Então vimos, por um lado, que o cortisol estimula a produção de endocanabinóides e isso faz parte do mecanismo que estimula o apetite e o retorno ao fim do stress, digamos assim; por outro lado, a leptina impede que o cortisol continue a produzir o endocanabinóide, ele diminui, e aí estabelece-se a saciedade. Descobrimos, assim, esse intercâmbio entre duas hormonas: uma que estimula o apetite, estimulando o endocanabinóide, e a outra que estabelece a saciedade, impedindo que essa outra hormona produza o endocanabinóide. E o interessante é que esse mecanismo não está presente só directamente no controlo do apetite, porque na verdade ele orquestra todos os processos biológicos. Fala-se dos aspectos sexuais, de aspectos fisiológicos de inflamação, de apetite, de metabolismo, mas o cérebro está sempre a enviar sinais através dos neurónios e das hormonas: “Olha, fígado, agora estamos nesta situação, portanto faz isto”, “Pâncreas, a situação agora é esta, faz isto”, “Testículos, agora está na hora de ir para a batalha” e os testículos dizem “Não, agora estamos numa outra batalha, agora não” e o cérebro faz isto o tempo inteiro. E os endocanabinóides são muito centrais, voltando a contextualizar, em duas situações específicas, como eu disse: para sair da “guerra” e voltar à normalidade e para tirar o máximo de vantagem quando está tudo bem. Os endocanabinóides funcionam assim. Por isso é que eles têm um potencial médico tão vasto. Afinal, o que são os endocanabinóides? São as substâncias que o nosso cérebro produz que são imitadas pela planta; a planta produz coisas que entram no nosso cérebro e que encaixam na mesma fechadura dessas substâncias endógenas que nós produzimos. E essas substâncias endógenas fazem parte do reportório que temos, precisamente para gerar bem-estar ou para desligar o mal-estar, por isso é que pode ser usado em qualquer tipo de doença que cause sintomas de mal-estar. Os canabinóides são potencialmente úteis nesses casos, porque dor física, náusea, inflamação e qualquer tipo de sofrimento psíquico, todos podem ser tratados com canabinóides. E qual é a doença que não tem esse tipo de sintomas, que não pode beneficiar disso?

“Sabemos que os autistas têm uma quantidade anormal, baixa, de canabinóides”

Ou seja, é como se em algumas doenças houvesse uma deficiência de endocanabinóides, que pode ser compensada com canabinóides exógenos?
Exactamente. Em algumas pessoas, aparentemente, existem doenças que dizem respeito a uma dificuldade, a uma incapacidade, a uma perda de eficiência na produção dos canabinóides. Hoje em dia conseguimos localizar isso, por exemplo, no caso do Autismo. Já sabemos que os autistas têm uma quantidade anormal, baixa, de canabinóides e existem outras situações que podem levar a quadros de inflamação crónica, que podem também envolver os canabinóides. Então, existem situações em que aparentemente há uma dificuldade do organismo em produzir os canabinóides e ele não consegue auto-regular-se. Por exemplo, o stress crónico é a situação em que o canabinóide foi levado a tirar a pessoa do stress, mas a pessoa não tem controlo sobre o stress. Por exemplo, o soldado que vai para a guerra não pode decidir “a minha vida está um inferno, vou voltar para casa”. A pessoa que vive uma vida miserável, que não tem recursos financeiros, que tem que trabalhar 14 horas por dia, não consegue alimentar a família, está sempre stressada, não consegue fugir do stress. A pessoa que perdeu um ente querido e que vai ter que lidar com aquele luto por algum tempo… Existem formas de stress crónicas, em que esse mecanismo, que é protagonizado pelos endocanabinóides, vai-se dessensibilizando, porque o cérebro está a dizer ao indivíduo: “Sai dessa situação”, mas o indivíduo não sai, esse mecanismo vai diminuindo a sua capacidade de agir. Uma característica típica de pessoas em depressão, por exemplo, é ter menos canabinóides que o normal e mais substâncias inflamatórias que o normal, portanto o sofrimento crónico, seja ele causado por uma inflamação ou por tristeza, vai levar a uma incapacidade de o organismo produzir endocanabinóides, o que aprofunda o problema. A pessoa pode entrar numa espiral de começar a ter ideias suicidas e juntamente com isso vem a dor física, porque todos os processos psicológicos se ligam a um estímulo de processos inflamatórios que se mantêm. Aí, a pessoa que sofre psiquicamente de tristeza, começa a sentir dor física e cria-se todo um processo que pode, infelizmente, culminar, por exemplo, num suicídio ou noutras situações, como doenças arteriais, obesidade, perdas de equilíbrio do metabolismo. Tudo isso envolve, em alguns casos, uma deficiência da capacidade de o organismo produzir os endocanabinóides, porque o indivíduo não conseguiu sair do stress crónico. Às vezes, é uma questão bioquímica, mas o mais normal é que aconteça dessa forma. E é muito frequente. Falamos hoje da frequência cada vez maior de depressão e a principal causa de depressão é o stress crónico.

Renato tem sido orador em várias conferências internacionais e participará este Domingo na 1ª edição da ExpoCannabis Brasil

É curioso porque, em Portugal, fizeram um estudo com os utilizadores de canábis para fins recreativos e mais de 60% disse que utilizava canábis para reduzir, precisamente, a ansiedade e a depressão. Isso, no fundo, acaba por confirmar, a um nível empírico, que as próprias pessoas experimentam uma substância que as faz sentir melhor. Isso comprova a ciência que está aqui a descrever.
É exactamente o que acontece. Descobrimos a canábis há muitos anos, 6.000 anos, por mero acaso. Provavelmente, alguém fez fogo no mato para caçar uns animais… porque o calor é importante para libertar os componentes da canábis, e aí eles comiam o que ficava por lá, os tubérculos assados, os bichos e tal… numa dessas vezes, alguém experimentou uma planta de canábis torrada, sentiu os efeitos e passou a interessar-se por aquela planta. Desse momento para cá, a planta só tem ganho propriedades medicinais, porque ela passou a ser uma espécie que evolui com o homem, da mesma forma que o cão ou o gado. Hoje em dia, é muito difícil achar uma planta de canábis original, porque há milénios que temos essa proximidade com a planta. A ideia da canábis como uma substância de abuso, proibida, vinculada ao crime, é uma pontinha na história dos homens com esta planta. Até 1937 era feito um uso medicinal, tendo inclusivamente havido nas principais indústrias farmacêuticas um boom de produção de derivados da canábis, entre o final do séc. XIX e os anos 1930, em função de conhecimentos tradicionais que vieram da Índia. Isso foi então incorporado na indústria, mas depois, por várias questões (existem vários relatos históricos de questões políticas e económicas) foi-se construindo a questão da proibição da canábis. Temos sempre que mencionar, evidentemente, que qualquer substância que aja sobre a nossa máquina biológica pode ser benéfica ou prejudicial, dependendo da qualidade e do uso que é feito, mas de maneira nenhuma existe uma justificação para haver pessoas a morrer para evitar que se use uma planta medicinal. Mas sabemos que tem que haver um uso consciente, não é?

“Todas as substâncias que são chamadas drogas de abuso, são substâncias que aliviam o sofrimento físico e psíquico. (…) Nas pessoas que acabam por desenvolver um uso realmente problemático de drogas, a causa do abuso não é o uso. É o uso que se deu num contexto onde essa pessoa foi sistematicamente privada do direito básico de ser feliz”

Claro. Mas com os avanços da canábis para fins medicinais, ainda há muita gente que insiste em fazer esta separação: “uma coisa é o uso medicinal, outra coisa é o uso recreativo”. Como é que vê esta separação entre os dois universos?
Recreação é medicina. Em qualquer situação em que nos sintamos felizes, estamos a automedicar-nos com o nosso sistema endocanabinóide. E se não estamos a dar conta disso por alguma razão e usamos uma substância que nos faz sentir melhor, isso é benéfico. Pode-se pensar: “Ah, então essa pessoa não vai fazer mais nada de produtivo na vida, não vai trabalhar, não vai encontrar-se com os amigos, vai só ficar a fumar canábis”, mas isso não é a realidade típica das pessoas. As pessoas que realmente entram numa circunstância em que ficam reféns de uma única fonte de recompensa… Porque nós precisamos de uma sensação de recompensa para sobreviver. Quando acordamos de manhã, acordamos cansados, ainda com sono, e precisamos de activar os circuitos do nosso cérebro que nos vão dizer por que é que temos de encarar aquele dia, não é verdade? Eu tenho que encarar este dia, porque eu gosto da minha profissão, gosto de ser jornalista, gosto de ver o impacto na sociedade, quero abraçar os meus filhos, quero fazer as minhas refeições… então precisamos desta recompensa quando acordamos. Algumas pessoas não têm essa recompensa em lado nenhum. Por exemplo, as pessoas que vivem na rua, na miséria, quando acordam, acordam dentro de um pesadelo. Para elas, encontrar uma substância que active esse sistema, que não conseguem activar de outra forma, é a medicina que elas têm. Todas as substâncias que são chamadas drogas de abuso, são substâncias que aliviam o sofrimento físico e psíquico. A canábis é analgésica e alivia o sofrimento psíquico. O álcool é analgésico e alivia o sofrimento psíquico. Os opióides são analgésicos e aliviam o sofrimento psíquico. A cocaína é analgésica e causa euforia. Na verdade, quando as pessoas sucumbem a centralizar a vida delas em torno de uma substância, não é a substância que causa isso; foi a vida delas que as colocou numa posição em que só sobrou a substância para lhes dar aquilo que precisam, aquela corridinha de “vamos lá continuar vivos”. O próprio conceito de adicção tem sido revisto, nesse contexto. Hoje em dia, a visão padrão da sociedade… por exemplo, no Brasil temos muitos problemas socioeconómicos e obviamente isso reflecte-se na conexão dessa circunstância com o uso de drogas, então há várias situações de pessoas a viver na rua, sem condições económicas, com as famílias desestruturadas e a usar crack. O foco da TV é dizer “Foi o crack que pôs essas pessoas na rua”, mas não é isso. A vida delas faliu, em algum sentido, e aí sobrou usar o crack para conseguir lidar com a vida. Então temos que ter muito cuidado ao avaliar isso. É evidente que o abuso de uma substância é um problema em si, mas hoje podemos dizer com segurança que a maioria das pessoas que fazem uso problemático de substâncias, que lidam com esse circuito de recompensa, o fazem porque esse circuito de recompensa está historicamente prejudicado na vida delas. Há um psiquiatra muito famoso (que foi psiquiatra do Keith Richards dos Rolling Stones – permita-me um pouco de humor numa situação que é muito séria) que teve muito trabalho em cuidar dessas pessoas. Ele diz que a maioria dos pacientes dele são pessoas que tiveram uma infância de abuso e de violência ou de abuso sexual, ou de privação, ou de falta de comida, de recursos, ou de estar num contexto de “guerra”, mesmo dentro do ventre… As crianças sofrem os efeitos e já nascem com uma propensão a ter uma relação diferente com essas substâncias, que agem nesses circuitos. Nas pessoas que acabam por desenvolver um uso realmente problemático de drogas, a causa do abuso não é o uso. É o uso que se deu num contexto onde essa pessoa foi sistematicamente privada do direito básico de ser feliz.

“O cérebro adolescente não é um cérebro adequado para usar canábis, porque os canabinóides vão contribuir para a forma como o cérebro vai amadurecer”

E em relação a desmistificar aqui alguns mitos ou o potencial aditivo, outra questão que tinha para lhe colocar era em relação ao facto de certas pessoas poderem ter surtos psicóticos com a canábis.
Isso é real. Cerca de 1%, no máximo, da população mundial tem alguma propensão para desenvolver um distúrbio psicótico ou esquizofrénico. Existe um conjunto de genes que tornam a pessoa predisposta a isso e essa predisposição só quer dizer o seguinte: com esses genes e uma vida deste tipo, essa pessoa pode desenvolver a doença. Não quer dizer que ela vai ter que desenvolver, certo? Mas em geral, podemos dizer que quem tem esquizofrenia tem um acervo genético que conduz a esse caminho. E esse caminho não chega directamente à esquizofrenia completa, passa por etapas; e uma etapa muito comum antes de a pessoa ser diagnosticada, antes de ter o primeiro surto, é sentir ansiedade. Quando se tem um sintoma que antecede um diagnóstico mais importante, dizemos que a pessoa está na fase prodrómica. A fase prodrómica típica da esquizofrenia, que ocorre muito, sobretudo, na juventude, antes de as pessoas começarem realmente a desenvolver a esquizofrenia (o que frequentemente acontece mais tarde, mas que pode acontecer mais cedo) é uma fase em que a pessoa sente muita ansiedade. Um adolescente que tem essa carga genética e que tem uma tendência a ter ansiedade, quando usa a canábis com amigos que não têm essa tendência, os efeitos são diferentes. Para esse amigo que tem uma vida normal, que não tem ansiedade, que normalmente não está a sofrer psiquicamente, ele só deu mais um colorido ao dia dele. No dia seguinte, ele não vai sentir falta, porque tem o resto da vida dele, eventualmente pode querer novamente. Para esse indivíduo [que tem a predisposição], ele não saiu dali para cá, ele saiu de cá para lá, ele saiu de um estado de sofrimento psíquico para um estado de alegria, então para ele é muito mais complexa a relação com a substância, porque a ausência da substância agora, para ele, é voltar para um estado de ansiedade, por isso esses adolescentes tendem a fazer um uso mais crónico, a voltar a usar mais. Aí é que surge um problema, porque se a canábis tiver uma componente muito alta de THC, o próprio THC tem uma curva de efeito que vai levando a pessoa… temos uma maneira de colocar em gráficos as sensações emocionais que podem ser colocadas em dois eixos principais – o eixo da saliência e o eixo da valência. A valência é se é mau ou bom; a saliência é se é muito ou pouco. A euforia tem uma valência positiva muito grande e uma saliência muito alta. O pânico é o oposto – a saliência é muito alta, mas a valência é muito negativa. O THC, pela maneira como age no nosso cérebro, pode sair da alta saliência positiva, que é a euforia, para a alta saliência negativa, que é a sensação de paranóia, e essa sensação de paranóia, num adolescente que tenha essa predisposição para a esquizofrenia, pode desencadear o primeiro surto [psicótico]. Não quer dizer que foi a canábis que causou, mas quer dizer o seguinte: para este adolescente, era melhor não ter usado a canábis dessa forma e talvez testar uma composição rica em canabidiol, por exemplo, que é um componente que favorece o lado ansiolítico do uso da canábis. A mensagem a reter é que qualquer substância que actue sobre o nosso corpo actua de forma diferente em cada indivíduo. E, entre os indivíduos, há aqueles que vão só ter efeitos mais positivos do que negativos e há aqueles que têm uma tendência a ter mais efeitos negativos. Então, as pessoas, e em primeiro os jovens, a não ser que seja por uma questão médica claramente orientada, epilepsia, autismo, não têm razão para usar canábis. O cérebro adolescente não é um cérebro adequado para usar canábis, porque os canabinóides vão contribuir para a forma como o cérebro dele vai amadurecer. Consideramos que o uso de canabinóides é aceitável quando indicado clinicamente, porque vai ser usado dentro de dosagens que não vão prejudicar mais do que beneficiar, mas o uso recreativo, desnecessário, na juventude não é recomendado, porque pode modificar a forma como o cérebro vai amadurecer. E isso inclui também os estádios mais tenros, do ventre. Também é bom que as mulheres evitem fumar cannabis para não afectar o desenvolvimento do feto; não há nada assim de muito claro que indique que mães que fumaram cannabis, os filhos ficaram com isso, mas o problema pode ser uma tendência, lá para a meia-idade, de ter depressão, de ter ansiedade e temos uma suspeita de que isso pode acontecer, mas vai ser muito difícil provar isso. Então. por via das dúvidas, dizemos que é melhor não usar, a não ser que seja recomendado por uma situação médica. Não é preciso ficar em pânico, porque o uso médico é um uso onde se conhecem as dosagens e estas são orientadas para produzir o benefício. Sobretudo, os adolescentes que demonstram ter sinais de ansiedade, que vivem numa família onde há historial de psicoses, esquizofrenia, esses têm que ser muito mais cuidadosos, mesmo depois de adultos, em relação ao uso de qualquer canábis. Por outro lado, podem começar em breve, espero, a procurar um médico e pedir uma composição de canabinóides especificamente voltada para o tratamento da esquizofrenia. O canabidiol tem essa capacidade.

“Existe, sim, o potencial do uso de canabinóides para tratar esquizofrenia, paranóia e psicose”

Era isso que eu lhe ia perguntar, sobre a utilização do CBD para o tratamento de psicoses ou esquizofrenia… Que evidências é que já temos?
Uma coisa interessante vem lá de trás, que foi quando constataram que esses episódios, de a euforia passar à paranóia, normalmente acontecem quando a pessoa fuma uma canábis que tem pouco CBD. Quando há um equilíbrio maior de CBD, a pessoa não tem essa experiência. O THC pode ser potencialmente ansiogénico, causar ansiedade, dependendo da dose, mas o CBD contrabalança esse efeito, é ansiolítico e tem um outro efeito que chamamos de antipsicotomimético. O que é psicotomimético? É justamente o efeito que o THC pode causar de simular uma situação de paranóia. Esse é um efeito psicotomimético que o THC pode ter. O CBD impede isso. Seja uma formulação pura de CBD ou com uma proporção adequada de bastante CBD para THC, existe, sim, o potencial do uso de canabinóides para tratar esquizofrenia, paranóia e psicose.

Renato Malcher é um dos mais de 100 oradores da primeira edição da ExpoCannabis Brasil, que arranca amanhã, em São Paulo

Não seria importante também, numa perspectiva de redução dos riscos para a juventude, que os governos, os países, disponibilizassem esta informação aos jovens, para eles fazerem escolhas mais acertadas? E, se calhar, no futuro, poder haver dispensários, como há no Canadá, em que há várias genéticas e variedades disponíveis, de acordo com o perfil de cada um?
Com certeza, precisamos de uma regulamentação e de um público que seja educado e que não seja tratado apenas como “se está errado, leva pancada; se está certo, tudo bem”. Temos que tratar as pessoas na base do conhecimento, temos que acreditar e confiar na importância de criarmos jovens com uma base, com uma vida focada nas escolhas baseadas no conhecimento, não no medo, não no preconceito, não no pânico. Por isso, para uma sociedade, de uma maneira geral, incluindo jovens e adultos, seria adequado que se pudesse comprar uma bebida alcoólica sem saber se ela tem 10% ou 70% de álcool? Não seria! Por isso é que é regulamentado e podemos ler no rótulo “este vinho tem tantos % de álcool”; sabemos o que estamos a levar para casa. Se a canábis não é regulamentada, uma pessoa não sabe o que está a levar para casa! Portanto, se a pessoa tem consciência, se ela tem ansiedade crónica e teve uma experiência boa com a canábis e ao mesmo tempo reconhece que tem um risco de ter uma experiência má e simplesmente não sabe o que está a comprar, vai continuar a arriscar-se; por outro lado, se ela está num ambiente regulamentado e ela é esclarecida, vai à loja ou a um dispensário, e diz “Essa canábis não serve para mim; quero esta aqui, que tem muito CBD e menos THC.” E aí volta para casa com um efeito positivo, sem correr o risco de ter um efeito negativo.

Que futuro vê para a utilização dos canabinóides, especificamente no autismo?
Eu vejo um futuro muito promissor. O caminho é longo, porque debaixo do “guarda-chuva” do autismo temos várias causas biológicas diferentes. São várias ‘maquininhas’ diferentes, nas quais se põe uma substância para mexer nelas, e então temos que pesquisar muito, identificar melhor quais são os tipos de organismo e problemas dos autistas, para depois explorar as variações de composições de canabinóides para cada caso. Temos de fazer isso antes em animais e depois, à medida que os resultados forem saindo, fazer tratamentos mais específicos para aquele grupo, de uma maneira mais precisa. Com isso, acredito que tenhamos resultados, não só de ganhos paliativos, que não são poucos, mas também realmente de evoluções, de melhorar mesmo a capacidade de compreensão da própria realidade, melhorar a capacidade, eventualmente, de se comunicar melhor. Mesmo que não se consiga falar, se os não-verbais conseguirem estabelecer algum tipo de linguagem, vai ser benéfico para a maneira como eles organizam a própria forma de pensar. Realmente, vislumbro que possamos chegar ao ponto de ter ganhos que não são apenas paliativos, e, quando eu digo paliativos, não estou a diminuir a sua importância, porque, basicamente, em alguns casos de autismo, a pessoa é cronicamente stressada, até pelo que acontece dentro do cérebro dela, então isso afecta tudo, inclusive o bem-estar da pessoa. Portanto, perspectivas sobre todo o aspecto paliativo já estamos a começar a ter, de forma  palpável, já estamos a ver esse resultado, embora nem todos os autistas beneficiem do mesmo grau. Temos que nos mexer para ir ampliando quais os grupos que podem beneficiar e eu acredito que, a certa altura, vamos ter, não casos de cura ou reversão do autismo, mas casos de um aprimoramento para um outro nível funcional que, de outra forma, não existiria. Hoje em dia, essa é a única perspectiva que eu vejo para um ganho desse tipo em relação ao autismo, por enquanto nos canabinóides, e talvez, quem sabe também, à medida em que avança o conhecimento sobre alguns psicadélicos, pode ser que possam colaborar também na questão dos canabinóides para os autistas.

 

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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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