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Cânhamo

Casa de cânhamo e carvão: a alquimia das argamassas

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Foto: D.R. | Pedrez

A Oficina de Arquitectura Pedrez, sedeada no Porto, foi criada em 2020 por Matilde Cabral e Francisco Adão da Fonseca e nasceu da decisão do casal passar a trabalhar em conjunto, aliando os saberes têxteis de Matilde às visões arquitectónicas de Francisco.

Na obra aqui apresentada, a reconstrução de uma moradia unifamiliar, numa encosta com vista para o Rio Douro, a palha de cânhamo une-se ao conceito da madeira queimada, oriundo do Japão, à noção das diferentes reacções de cada material em termos de PH, à lógica das multicamadas e à capacidade de retenção de Co2 e pegada ecológica positiva desta fibra natural. 

Francisco Adão da Fonseca e Matilde Cabral na casa de cânhamo e carvão, no Porto

Tudo isto se conhece numa conversa dentro do armazém / laboratório / atelier da Pedrez, um espaço multifacetado, onde mesclas de saberes convidam ao sonho de novas soluções de arquitectura e de vida, questionam e acima de tudo produzem soluções, concretizadas em projectos inovadores a nível internacional. Mas, no fundo, apenas recuperam soluções antigas, como o “cimento romano”, que deve a sua resistência e durabilidade milenar  ao uso de cal aérea e não hidráulica, tal como nas “receitas do Francisco”. 

Após a descoberta de tudo o que existe no armazém, desde múltiplas receitas de argamassas, a máquinas construídas para fabricar três tijolos de cânhamo de cada vez, até uma outra para destruir as sobras e as poder reutilizar, saímos a pé para ir visitar a obra, com a sensação que depois da explicação apaixonada e conhecedora deste arquitecto, tudo isto é o “novo normal” na construção, ou assim devia ser.

Qual é o programa desta obra, Francisco?
Esta obra é uma habitação, no centro do Porto, com todas as caraterísticas de uma habitação urbana, em que nós fazemos o reaproveitamento de uma obra de arte que foi construída no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). Fazemos o reaproveitamento dessa escultura, uma escultura maciça, várias paredes de dezenas de m2 nesta mistura de betão de cânhamo com carvão, fazemos a reutilização disso numa habitação, naquilo que, constatamos agora, a posteriori, é uma peça de prefabricação autêntica.

Portanto, vocês pegaram numa parede maciça, cortaram-na em blocos e foram preenchendo as necessidades da obra?
Precisamente isso. Havia uma parede, nós cortámo-la e agora refizemos esse “Lego” numa construção nova.

Em relação à eco-construção, porquê o recurso ao hempcrete enquanto material de construção?
O hempcrete é o material mais capaz com que alguma vez tomei contacto. Tenho experiência em vários tipos de construção, em vários sistemas construtivos chamados sustentáveis e nunca contactei com nada tão completo como o betão de cânhamo. É o único material/sistema construtivo (porque ele depois implica um determinado sistema de construção) que nos permite fazer paredes de 25 cm que cumprem com a térmica, com a acústica, com os regulamentos de incêndios e com o qual, até certa medida, conseguimos também cumprir com as exigências de um material de fachada e exigências estéticas de acabamento no interior das paredes, portanto não há nenhum outro material de construção tão capaz, a nível da construção, como este. Isto para não referir as características indirectas do ciclo de vida do material, que nos trazem benefícios agrícolas, empregabilidade, capacidade de reestruturação de solos que estejam esgotados, desertificados, por assim dizer. Portanto, acho que é um material que, se falarmos do seu potencial, daria aqui outro artigo de quatro páginas sozinho!

A adicionar a esta panóplia incrível de utilizações ou de caraterísticas, vocês resolveram adicionar o carvão como mais uma componente desta argamassa. Porquê?
A madeira queimada, carbonizada, é historicamente usada como uma medida de protecção da madeira no exterior dos edifícios. É uma técnica normalmente atribuída aos japoneses, chamada Sugi Ban, que nós quisemos adaptar para a construção em cânhamo, através da inserção de carvão na mistura e/ou a queima da própria palha do cânhamo, de modo a que, no exterior, não seja necessário dar qualquer tipo de tratamento ao material.

Fica um produto final então, de acabamento exterior…
Fica um material de fachada final, exactamente.

Qual o papel, no mundo da construção e na descarbonização da sociedade, nomeadamente na construção (que tem um grande impacto ambiental, como sabemos) que estas argamassas podem, e devem, desempenhar?
A construção que tenha por base ou que integre fibras vegetais, na sua generalidade, é uma construção sustentável. Quando digo fibras vegetais falo obviamente da madeira, do vime, do cânhamo. São normalmente sustentáveis porque, logo à partida, estamos a falar de uma pegada de carbono mais positiva, de uma construção mais leve, de uma construção reciclável e de um sistema construtivo também, todo ele, com características sustentáveis. Quando se constrói, não se constrói com um material único, constrói-se com famílias de materiais, e, quando usamos o cânhamo, estamos normalmente a apontar para uma família que é, toda ela, sustentável e é aí que está o principal benefício.

Quais as vantagens e desvantagens do uso do cânhamo relativamente à construção convencional, em termos genéricos, e especificamente em termos de preço e velocidade de construção?
Começando pelas desvantagens, diria que é um material que não está ainda devidamente implantado, portanto, não está industrializado da mesma forma que os materiais tradicionais, o que tem implicações negativas, naturalmente, como a falta de conhecimento que os técnicos projectistas possam ter sobre o material (o que dificulta o trabalho de projecto), a falta de conhecimento e experiência ou a escassez de oferta de mão-de-obra, de fornecedores, de aplicadores para o material (o que também inflacciona os preços, dificulta os calendários, etc.). É um material que sofre em termos do valor praticado no mercado, por estar numa fase ainda imatura de desenvolvimento, pelo menos no que respeita à sua disseminação no mercado. O cânhamo tem as desvantagens que são naturais da madeira (cada material tem fraquezas e benefícios, ou vantagens, ou virtudes), que é uma certa fragilidade e, em climas propensos a tal (quentes e húmidos), à disseminação e crescimento de fungos, como é o caso de Portugal, por exemplo, com humidade alta e temperatura média anual também média, temperada, o que faz com que o material sofra. Por exemplo, na Holanda ou na Bélgica, que são países também húmidos, mas com uma temperatura mais baixa, o cânhamo não necessita de ser revestido na fachada; em Portugal é bastante aconselhável que seja revestido com algum tipo de reboco ou de recobrimento, por causa da temperatura alta e não tanto pela questão da humidade. No fundo, é a combinação destes dois factores. Depois, nesta fase, ainda temos aqui algumas questões que têm precisamente a ver com esta falta de maturidade, de desenvolvimento e implantação de material, que é a falta de homogeneidade do fornecimento. Por exemplo, os tijolos cerâmicos são feitos de barro e não há dois barros iguais, mas já existe uma cultura, um conhecimento, uma tradição que faz com que qualquer pessoa interessada em abrir uma indústria de cerâmica tenha a confiança de saber que consegue misturar diferentes tipos de barro para lhe dar um tijolo de qualidade. O cânhamo é igual; as plantas são, todas elas, diferentes, as variedades são diferentes, os terrenos são diferentes e há uma falta de conhecimento ainda sobre toda esta multiplicidade de variáveis, que permitam facilmente a um empreendedor chegar a um bom ou excelente produto, portanto isto implica muito mais um processo de experimentação, de tentativa-erro, do que propriamente ensaios laboratoriais e investigação científica hardcore. Isso é uma desvantagem que, no fundo, faz parte desta tal falta de maturidade do mercado. 

E as vantagens, que tanto anseio ouvir?
Temos uma série de vantagens, muitas delas em potência, que poderão realmente vir a ter uma expressão a grande escala, mas que, para já, só têm expressão nas pequenas obras que são pioneiras e que são, enfim, experimentais. Uma vantagem muito clara do cânhamo é a sua leveza; é um material que se enquadra dentro daquilo que são os materiais leves e é a alvenaria (porque é uma alvenaria, é um betão, que é betonado, faz parte da família das alvenarias), é a alvenaria mais leve que existe, ou seja, uma parede betonada em cimento, em massa cimentícia, de betão, inertes e aço, uma parede feita em pedra, uma parede feita em tijolo cerâmico vazado, em tijolos de cimento leves, são todos eles significativamente mais pesados do que uma alvenaria de cânhamo. Isto depois traduz-se na leveza do edifício, em poupança de materiais, em facilidade logística, porque os materiais têm que ser içados, têm que ser elevados para cima dos edifícios, têm que ser transportados dentro dos edifícios, depois têm que ser novamente organizados antes de ser feito o descarte… Toda essa logística é muito mais simples. Tem a vantagem de ser um material que é 100% reaproveitável com uma facilidade enorme, ou seja, os resíduos de cânhamo podem ser recolhidos, novamente triturados e reutilizados. Não há desperdício e tem a vantagem de ser o único material de construção (isto parecem coincidências a mais, é preciso dizer isto no artigo; temos que estar abertos a uma situação que é uma situação extrema, porque não é normal haver materiais com tantas particularidades e até parece que uma pessoa está a inventar ou a florear uma história, quando na verdade, são factos!) que cumpre com os grandes regulamentos da construção em 25cm de espessura, com a térmica, a acústica, incêndio e, segundo os desenvolvimentos que a Pedrês tem feito, estamos muito próximos de conseguir, ou podemos até, efectivamente, dizer que já conseguimos, que o material tenha a resistência que precisa de ter no exterior, aos factores externos, climatéricos e mecânicos e que tenha uma apresentação estética, uma textura que o torne aceitável, interessante como um material de acabamento em interior. Ou seja, estamos a falar de um material que responde em todos os espectros de uma forma fantástica, porque, para além de tudo, é um material leve, que tem uma pegada de carbono absolutamente imbatível e que é 100% reutilizável, portanto não há resíduos de obra. O seu processo de fabrico (isto também é uma vantagem muito significativa) consome muito pouca energia e tem pouco ou nenhum efluente industrial. São muito raros os materiais que não produzem efluentes industriais, sejam eles químicos, provindos de poeiras, de serrações, de moagens… A única coisa que faz é pó e é um pó bastante inócuo. Portanto, para o trabalhador, seja numa fase de produção ou numa fase de aplicação e execução, seja um trabalhador numa fase de demolição já num ciclo de vida mais avançado, é um material muito interessante, muito amigável de se trabalhar… As vantagens são inúmeras. 

E como tem sido aplicar estes princípios nas obras que tens desenvolvido?
As desvantagens são suficientes para incapacitar e bloquear a evolução deste material no mercado. É preciso muita vontade. Apesar de todos estes benefícios, as desvantagens ainda são bastante impeditivas, porque, não havendo educação, formação, transmissão de conhecimento, é impossível que o material venha a singrar e transformar-se numa opção mainstream. Isto tudo para não tocar nos aspectos agrícolas, que são imensamente sensíveis e difíceis de contornar e de ultrapassar, e que também, no fundo, acabam por impedir o desenvolvimento desta tecnologia. 

Para um futuro cliente e dono de obra, quais são os valores por metro quadrado que se pode esperar ao escolher esta tipologia construtiva?
Em relação aos valores por m2, sem a escalabilidade, sem volume, numa óptica artesanal, que é o que nós temos feito na Pedrês, o material anda ligeiramente acima dos valores de mercado. Uma parede de fachada, “chave na mão”, anda nos 110€/m2, uma parede terminada 120€/m2, enquanto que, na construção corrente (temos de comparar coisas mais ou menos com a mesma qualidade… não podemos comparar a parede de uma garagem com a parede de uma habitação, nem a parede de uma habitação com a parede de um hospital), obviamente que se consegue construir uma parede de fachada a 40€/m2, mas estamos aqui a falar de paredes que têm uma qualidade máxima, são paredes que respiram na sua totalidade, são paredes onde não há possibilidade de condensações internas. As condensações internas são uma coisa que acontece recorrentemente e que neste tipo de construção não existe, porque a parede é maciça, não há cavidades, não há vazios e, portanto, não há contrastes de materiais uns para os outros. Estamos a falar de uma parede da maior qualidade que se pode ter e obviamente que, se compararmos com a construção corrente, não andará nos 100€, mas andará lá próximo aquilo que se pode conseguir com uma parede corrente rebocada com um reboco respirável, com um tijolo cerâmico, com um sistema de capoto, de ETICS (esferovite) e, depois, as séries de colas que vêm antes e depois dessas esferovites e o reboco por cima… isso, que é uma parede que não tem a mesma qualidade, será sempre mais barato, não equacionando o peso que tem no edifício. É uma parede que vai pesar mais na estrutura do edifício, e se começarmos a trazer esses valores para a equação, talvez o cânhamo comece efectivamente a ser mais barato do que um edifício, digamos, pesado, tradicional. 

E, finalmente, um dado que um cliente teme sempre quando decide construir ou reconstruir, qual a velocidade de construção?
A betonagem do betão de cânhamo é extremamente rápida, porque a cofragem não tem que descansar com o material. Portanto, é feita a betonagem e a cofragem é movida de imediato para a próxima tranche de betonagem. Isso traz uma velocidade muito grande à obra e, de facto, em questão de velocidade de construção, temos aqui uma desvantagem, que é o betão de cânhamo precisar de uma subestrutura, de uma estrutura mais leve escondida dentro das paredes, o que traz aqui algumas particularidades na logística da obra. 

Qual vai ser o vosso próximo projecto?
O próximo projecto da Pedrez será colocar o cânhamo sobre rodas, em cima de trailers de camiões TIR! Talvez na edição de Dezembro da Cannadouro Magazine já possam conhecer este projecto.
_________________________________________________________________
Entrevista de João Carvalho, originalmente publicada na edição #3 da Cannadouro Magazine

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1 mês atrás

Where is this house located?

Laura Ramos
20 dias atrás

It’s in Porto, Portugal!

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