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Entrevistas

Stephen Murphy: “A única maneira de fazer uma indústria de canábis é colocando os pacientes em primeiro lugar”

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Foto: D.R. | Prohibition Partners

Stephen Murphy é um pioneiro da canábis a nível internacional, liderando duas das principais estruturas da indústria com sede no Reino Unido. Aos 36 anos, é o co-fundador e CEO da Prohibition Partners, a principal fonte de análise sobre a indústria europeia de canábis, onde trabalham “100% de pessoas de canábis”. Apaixonado pela planta e pela indústria, Stephen Murphy lidera ainda a Cannabis Europa, uma das maiores conferências de canábis medicinal da Europa, que realizou mais uma edição em Londres, no passado mês de Junho, e prepara agora a Business of Cannabis, que acontecerá a 3 de Novembro, em Nova Iorque. 

Com experiência em tecnologias, Media digital e finanças corporativas, Stephen trabalha com investidores, empreendedores e reguladores para identificar, qualificar e maximizar as oportunidades de negócio nesta nova área promissora que é a canábis e diz que acredita que Portugal será o próximo país a legalizar o uso adulto de canábis.

Falámos com Stephen Murphy em Londres, durante a Cannabis Europa, um evento que julga “necessário para aproximar as pessoas”. Ficámos a conhecer um pouco melhor a sua história e o que o move para dedicar o seu tempo e talento a esta indústria emergente, que tem de colocar “o paciente em primeiro lugar”.

Quando e porque é que começou a trabalhar na indústria da canábis?
Há sete anos. Sempre fui apaixonado por canábis e sempre pensei que existe um preconceito contra o consumidor de canábis, por oposição ao que consome álcool. Se alguém gosta de outro alimento básico como a canábis, acho não pode ser discriminado. E falo como um homem branco, de classe média, pois vemos como a canábis está a ser usada como uma ferramenta para estigmatizar ou implementar uma discriminação racial significativa e como isso está a ser constantemente utilizado para reprimir, em termos de leis, contra a população que gosta de canábis. Eu apenas senti que há algo muito único sobre esta planta, que é tão universalmente apreciada, com um potencial maravilhoso em termos de saúde, medicina, bem-estar, recreação, farmacêutica, comida, bebida e, como sabe, industrial… esta planta tem um potencial tão grande, mas é tão incompreendida, e eu não sei se haverá algo parecido na minha vida. É tão único que há um momento no tempo e eu quero fazer parte da tentativa de fazer o certo à sociedade, trazendo a legalização, a normalização da canábis.

“Temos a oportunidade de criar uma indústria justa, mais alinhada com as necessidades da sociedade”

O Stephen pode ser considerado um pioneiro desta indústria…
Acho que estamos a começar, estamos nessa transição, a ver a canábis a tornar-se cada vez mais aceite, mais acessível. O debate agora é sobre qual será o melhor caminho a seguir, claro, mas quando começámos havia menos de oito países no mundo que eram legais. Hoje há pouco menos de 60, sem incluir os Estados Unidos da América (EUA). Essa é uma aceleração que poucos previram e fazer parte da mudança é satisfatório, mas também dá energia, porque se conversa com diferentes grupos, defensores e pacientes ou políticos ou empresários, e todos os intervenientes precisam falar e fazer parte desta discussão, que não acontece noutros sectores. Por exemplo, a indústria do petróleo não vai falar com as pessoas que estão a abastecer os seus carros (risos), enquanto que no sector que estamos agora temos a oportunidade de criar uma indústria justa, mais alinhada com as necessidades da sociedade.

Stephen durante o seu discurso de abertura da Cannabis Europa, em Junho, em Londres

É visível que a Cannabis Europa tem uma abordagem que não esquece o paciente e que apoia a luta pelo acesso.
É um desafio, porque se quer colocar o paciente em primeiro lugar, especialmente quando passamos pela legalização. É fundamental demonstrar para aqueles na sala – e aqueles na sala podem ser reguladores, podem ser investidores, podem ser operadores – a diferença na experiência e no desenvolvimento do paciente, porque obviamente o que funcionou para o paciente na segunda-feira pode ser diferente do que funcionou na sexta à meia-noite. A evolução das necessidades do paciente é muito, muito interessante, porque não é um medicamento farmacêutico padrão, precisa evoluir com o paciente e isso é algo que traz uma camada adicional de complexidade, mas também volta a alimentar a forma como os negócios se desenvolvem, como os médicos prescrevem, como é a nossa pesquisa e a nossa compreensão, então é muito cíclico. Mas tudo tem que começar com o paciente, porque se não entendermos como isso afecta as suas vidas, como afecta os seus cuidados de saúde, bem, então estamos realmente a perder o ponto do por quê de estarmos a fazer isso. A única maneira, realmente, na minha opinião, de fazer uma indústria de canábis é colocando os pacientes em primeiro lugar.

Onde é que o Stephen nasceu e cresceu?
Então, nasci na Irlanda e mudei-me para Londres aos 23 anos. Trabalhei em publicidade, para uma grande marca de alimentos e entretenimento, para o mundo das imagens de cinema, Universal Music, Tabasco, Ben&Jerry’s durante cerca de 3 anos, em toda a Europa… o que foi muito divertido, mas, na verdade, para mim foi como estar longe de fazer uma mudança real. Era divertido, ter um trabalho criativo em comunicação, mas era mais um complemento ao estilo de vida de Londres do que algo realmente mais significativo e impactante. Então, quando a canábis surgiu e eu vi que havia uma oportunidade real de me tornar um profissional da canábis… eu tinha sido um empreendedor e construía negócios antes, mas a ideia de ser um empreendedor em canábis era tão atraente que eu meio que mergulhei de cabeça. Passava o tempo a ver o que estava a acontecer nos EUA, no Canadá, considerei entrar num clube de canábis em Espanha, mas era tudo muito cinzento e achei não era a maneira certa de abordar a questão. Não se pode fazer mudança a partir de uma posição em que já estás a lutar contra as regras, é preciso trabalhar dentro das regras existentes e depois procurar adaptar-se, exactamente como fizemos no Reino Unido. Quando a gente começou, não havia legalização nem acesso dos pacientes, hoje há cerca de 16 mil. Em termos do papel que desempenhamos, é um papel muito pequeno. O nosso trabalho, especialmente com a Cannabis Europa, é reunir as pessoas certas na sala, que podem ajudar a fazer a mudança.

“A ideia de ser um empreendedor de canábis era tão atraente que eu meio que mergulhei de cabeça”

A primeira coisa que fez foi fundar a Prohibition Partners?
Na canábis, sim. Em 2017 lançámos a primeira edição do European Cannabis Report, que foi meio que a entrar no espaço, reunindo dados e informações sobre o que estava a acontecer na Europa, tentando apresentar uma visão consolidada para pessoas de fora do espaço da canábis e tentando demonstrar que havia um mercado aqui. Sempre identificámos oportunidades dentro do sector, porque conforme ele evolui, vê-se rapidamente que haverá etapas na cadeia de suprimentos que ainda precisam ser atendidas, e na Europa tudo está a ser construído do zero. As marcas tradicionais, as empresas tradicionais, as empresas de CBD ou empresas de alimentos e bebidas, elas não entram realmente na canábis, ainda há um estigma associado, o que é obviamente negativo e positivo: negativo, na medida em que reduz o capital que se desloca para o espaço, mas positivo na medida em que, se for um empreendedor ou se estiver a olhar de um ponto de vista criativo, há todo um panorama que precisa ser desenvolvido. Isso é super empolgante, está-se a tentar tirar o melhor de outras indústrias e implementá-lo na canábis. Acho que é onde estamos agora, as pessoas deixarem os likes do Google e as grandes corporações de tecnologia, financeiras ou grandes organizações profissionais e migrar para a canábis. Isso não acontecia há dois ou três anos. Acho que há mais e melhor talento a entrar, o que atrai investidores de melhor qualidade, e a percepção importa, interessa mesmo. “Libertem a erva” é um grande lema, mas não avançou muito em trinta anos de campanha, falhou. Então é preciso ter uma postura mais profissional, eu costumo dizer que não faz mal vestir fato e gravata de vez em quando e ter uma conversa adequada. Estamos a lidar com saúde, com reforma social. Estas são questões sérias, que precisam de tempo para serem consideradas e são precisas pessoas qualificadas, que tenham experiência. Por isso, é óptimo ver a profissionalização da canábis europeia e acho que, bem ou mal, a canábis terá sempre um forte lado cultural, mas, no final de contas, há um negócio por trás disso e, como tal, tem-se uma responsabilidade, tanto com os accionistas quanto, claro, com os seus clientes.

De onde surgiu o nome “Prohibition Partners”? 
Acho que queríamos um nome um pouco forte e chique, mas também que se destacasse. Queríamos identificar-nos com o assunto sobre o qual estávamos a falar, como canábis e algo que é proibido, o que achamos que é um absurdo absoluto. Idealmente, vamos mudar o nosso nome logo que a canábis deixe de ser proibida em todo o mundo. Acho que essa é, provavelmente, a nossa missão a longo prazo, mas, para nós, achámos bastante ridículo que a canábis fosse, e ainda seja, proibida. Acho que o tema e a conversa sobre a proibição são terrivelmente frustrantes, mas, sim… penso que os europeus conseguiram ver a ironia no nome… os americanos nem tanto. (risos)

Eu acho que é um óptimo nome, se bem que no início também me questionei do porquê do “Prohibition”.
Não estamos a apoiar a proibição, não! (risos)

Às vezes a psicologia invertida funciona. Acho que foi uma boa estratégia de marketing, porque acabaram por se tornar bastante conhecidos no mundo inteiro. Tem ideia de quantas pessoas assinam o relatório da Prohibition Partners?
Cerca de 150 a 155 mil em todo o nosso grupo de Media. Temos marcas diferentes no nosso portfólio, dependendo do assunto que estamos a falar, seja América do Norte, Europa, negócios, saúde, pacientes. Entre o nosso antigo grupo, seremos um dos maiores do mundo. Começámos na Europa, mas temos operações na América Latina, Ásia, temos um público bastante grande na Oceania e, obviamente, na América do Norte, então tornámo-nos globais, mas focamo-nos muito em mercados emergentes.

Quantas pessoas trabalham actualmente na Prohibition Partners?
Dentro do grupo temos cerca de 40, acho, e elas estão espalhadas. Temos duas divisões principais: uma divisão de tecnologia, que está a liderar o nosso mercado, com a Atalis, o nosso novo produto, que é um mercado B2B que tenta tornar o comércio de canábis na Europa conveniente, seguro e em conformidade. Temos um banco de dados e grupo de Media, que administra os nossos eventos e publicações, mas ambos trabalham em conjunto para entender o que está a acontecer no mercado, o que o mercado precisa, quem são os principais players, etc.. Então, o grupo que construímos é bastante sinérgico: temos a sorte de termos marcas que as pessoas gostam, mas também somos pessoas de canábis, somos 100% pessoas de canábis. Somos apaixonados pela indústria, somos apaixonados por mudanças, somos apaixonados por termos princípios e valores em termos de com quem trabalhamos, em termos dos tipos de projectos que assumimos, quem temos na nossa equipa; estamos nisto a longo prazo e eu nunca vou querer trabalhar noutra indústria que não seja a da canábis.

“Temos a sorte de termos marcas que as pessoas gostam, mas também somos pessoas de canábis, somos 100% pessoas de canábis. Somos apaixonados pela indústria”

A Cannabis Europa é como o ciclo de conferências da Prohibition Partners, certo? 
É uma série de conferências, sim. 2018 foi a primeira, no Barbican, em Londres, onde não sabíamos sequer o que estávamos a fazer… e ainda não sabemos (risos), mas estamos a melhorar um pouco!

O mesmo aconteceu com a PTMC – Portugal Medical Cannabis. Improvisámos a primeira conferência em 2018, com médicos e investigadores de todo o mundo, mas não tínhamos qualquer experiência a organizar conferências. Aconteceu o mesmo com vocês?
Sim, um pouco. Parte da equipa que está connosco agora está desde 2018. O motivo de iniciarmos uma conferência foi porque sabíamos que queríamos falar de tópicos importantes. Há muitos eventos, e certamente muitos eventos de canábis, mas eles são administrados por empresas de genéricos ou por pessoas que não estão na indústria e isso não representa a direcção que queremos que a indústria siga. Começámos a Cannabis Europa mais como um passo para a mudança, para tentar elevar a conversa em termos de acesso para os pacientes, capital a entrar e pensamento de longo prazo, fazendo com que as pessoas deixassem os seus empregos de uma empresa profissional estável e assumir riscos a longo prazo. Pensámos que poderíamos fazer melhor do que o que se fazia na época e ainda fazemos. Obviamente, acho que estes encontros são fundamentais para aproximar as pessoas. Fizemos virtual quando veio a Covid, mas como humanos precisamos desse contacto, é importante. E como uma indústria pequena, é preciso encontrar aquela pessoa com quem se vai fazer negócios e construir um relacionamento, ganhar confiança. Eventos como estes são fundamentais para isso. Estamos aqui apenas há meio dia e o feedback já está a ser esmagador, em termos de pessoas que tiveram reuniões bem-sucedidas ou já fecharam negócios ou já aprenderam algo novo numa das palestras e é por isso que organizamos eventos. As pessoas querem ir embora no final do dia ou dos dois dias com uma nova ideia, um novo relacionamento. Esse é o nosso trabalho, garantir que valha a pena gastar o dia, que as pessoas dêem um passo à frente e que estejam confiantes em trabalhar no sector.

Quantas pessoas vieram a esta edição da Cannabis Europa? 
Acho que pouco mais de 1.200 pessoas.

A Cannabis Europa tem crescido desde a primeira edição ou é diferente de uma cidade para outra?
Fizemos eventos regionais, levámos a Cannabis Europa para Paris, para Madrid, para iniciar conversas. Não estou a querer tomar nenhum crédito pelos resultados recentes aqui, mas nós levámos a nossa conferência para Nova York e Toronto, para encorajar o investimento norte-americano na Europa, para demonstrar que a Europa está aberta aos negócios, então têm sido eventos mais tácticos. Esta é uma plataforma que utilizamos para a mudança, enquanto em Londres, que sempre foi a nossa base, esta é a maior até agora. Mas, para nós, é mais uma questão de qualidade. Temos aqui líderes séniores, CEOs, investidores, políticos… Não são os vendedores, não é disso que tratamos. Obviamente, queremos desenvolvimento de negócios, mas é desenvolvimento de negócios de cunho mais corporativo que estamos focados em construir, porque isso vai acelerar a mudança para acontecer mais rapidamente.

“É crítico! No Reino Unido já passaram três anos, onde estamos com o acesso dos pacientes?”

Quais os principais destaques que faz do evento deste ano?
Do ponto de vista das palestras, acho que, voltando a um ponto anterior, temos um foco maior no paciente e no acesso do paciente. É crítico! No Reino Unido já passaram três anos, onde estamos com o acesso dos pacientes? Na Alemanha, em Espanha, temos notícias recentes, o que isso realmente significa? E é esse tipo de conversa e novas ideias que podem ajudar a inspirar, gerar novas energias e, esperançosamente, atrair investimentos ou talentos para ajudar a acelerar a mudança. Temos muitos grandes nomes que estiveram na cena cultural e, obviamente, a canábis tem um vínculo tão estreito com a cultura, com a arte e com a música, e isso é óptimo para a tornar mais popular, mais aceitável. Eu acho que é muito importante para todos nós reconhecermos que estamos a trabalhar com uma planta que é tão universalmente amada e que dá esperança não apenas aos pacientes, mas também a todos os outros sectores e indústrias criativas. É realmente único, há uma afinidade e é muito importante reconhecer e dizer: “Ok, é óptimo falar sobre ciência e por aí fora, mas vamos educar-nos sobre outros sectores e estar abertos para como a canábis será usada na sociedade”.

Como vê a legalização recreativa no Reino Unido? Acha que vai acontecer em breve?
Bem, acho que vai acontecer dentro de três anos.

Seguindo a Alemanha?
Seguindo a Alemanha, seguindo Portugal…

Acha que em Portugal será antes do Reino Unido?
Sim, sim, adoro o modelo português, acho que Portugal vê muito à frente. Acho que o Reino Unido demorará 3 anos, mas quando precisam atirar um osso para o eleitorado… porque é meio 50/50 em termos de a favor e contra, mas isso vai mudar à medida que se normalizar. Eu acho que ainda há uma grande peça educativa que é necessária em termos de “o que é canábis”, porque, para a maioria, a canábis ainda é uma erva de rua, que tem alta potência e causa psicoses ou grandes danos. E esse é o estigma que estamos a tentar combater.

E quando finalmente for legalizada, vai sentir que a sua missão foi cumprida?
Não, absolutamente que não….

Então, o que restará por fazer?
Há mais 180 países… não podemos e não vamos parar até lá! Sabemos como é fácil revogar as coisas, então sim, acho que a missão é o acesso global. Tentar reformular a política de drogas, tipo, canábis é a primeira droga, mas reformular a política de drogas na alta sociedade virá abrir o acesso a drogas e abrir as nossas mentes.

“Não acho que a descriminalização seja uma boa política, acho que é uma política terrível. Acho que é lavar as mãos sem dar apoio”

Amanhã vai estar aqui o Carl Hart, que também foi palestrante na PTMC, onde falou sobre o futuro da reforma das drogas. Como é que imagina o cenário perfeito em termos de regulamentação de substâncias?
Acho que as drogas precisam ser controladas… Elas são muito poderosas e precisam de algum nível de regulamentação, ou certamente de protecção ao consumidor. O quanto isso avança, é claro que será uma evolução da política internacional de drogas, mas acho que nós, como sociedade, precisamos permitir maior acesso a uma variedade maior de drogas que são mais controladas, onde os consumidores são mais educados. As crianças estão a sair e todos estão a utilizar drogas, a experimentar, mas ninguém sabe o quanto, ninguém sabe o volume, ninguém sabe a frequência, ninguém sabe a pureza ou a qualidade… e isso é aceitação do consumo e consumo em massa (massa, consumo de massa!) e negação absoluta e completa sobre a preparação para a experiência. Não têm preparação nenhuma, sabe? Eles estão como “Ok, eu não me importo de o ver a tomar”… e eu acho que essa é a política de drogas. É certamente como com Portugal ou com a Alemanha: vão mudar a lei da política doméstica de drogas, estão a mudar a lei internacional e a lei europeia e isso terá enormes ramificações. Toda gente diz “Oh, o modelo português é progressista”, mas não é… está sem direcção há anos e, na verdade, causou mais danos. Eu não acho que a descriminalização é uma boa política, acho que é uma política terrível. Acho que é lavar as mãos sem dar apoio, então, quanto mais cedo Portugal legalizar a canábis e depois tratar das outras drogas. que são descriminalizadas…

É engraçado que diga isso, porque de facto Portugal descriminalizou as drogas e faz grande alarido disso, mas, ao mesmo tempo, a polícia ainda investe seis meses numa investigação para prender uma pessoa que tem três plantas em casa. .
Mas também é como toda a gente diz “Olha o modelo português, eles são tão progressistas”, e você fica tipo “Bom, não, eles não são, você é que não entende o modelo…” Porque na verdade o progressista, na medida em que caminha para a descriminalização, não está a abordar o assunto a longo prazo. É por isso que estou muito empolgado com o novo projecto de lei (da legalização do uso pessoal), que é favorável aos negócios, eles estão a aprender com o que aconteceu no Canadá, estão a procurar apoiar o mercado doméstico. Não é perfeito, mas…

Pelo menos removeram, desta vez, a proibição dos comestíveis e bebidas com infusão  de canábis…
Que é o que têm de fazer! Temos que dar aos consumidores o que eles querem.

E não se deveria dizer “Você pode fumar, mas não pode comer”. Porque não faz sentido…
Não faz qualquer sentido.

Mas, de qualquer forma, desta vez, pelo menos tiraram do projecto de lei todas essas proibições. Não é perfeito, mas nestes projectos de legalização tenta-se sempre proibir muitas coisas…
Eles serão os primeiros! Portugal será o primeiro.

Acha que Portugal será o primeiro país a legalizar o uso adulto?
Sim.

Por que é que diz isso?
Eles têm uma equipa de boa qualidade por trás deles e acredito que vão conseguir isso. Existe o apoio público, existe o apoio privado e existe o apoio legislativo. Acho que Portugal será o primeiro. Eu venho dizendo isso há muito tempo.

Você sabe algo que eu não sei? (risos) Porque eu sinto que, em Portugal, as pessoas têm medo de falar de canábis, é como se fosse o assunto tabu no Parlamento…
Este é o turismo de canábis. Esta não é a canábis doméstica para utilizadores em Portugal. Salas em Portugal, que estão vazias desde a pandemia de Covid, trazer pessoas de volta às praias, trazer mais pessoas de volta ao turismo em Portugal. É uma jogada económica que também traz um benefício inicial, pois aborda a ponte da descriminalização.

Então, se Portugal vai ser o primeiro, quando é que isso vai acontecer?
Pensei que seria no final deste ano…

Você sabe que eu pensei o mesmo? Talvez até ao final deste ano… E o Bloco de Esquerda já está a dizer que vai marcar o debate sobre a legalização para Setembro, depois do verão. A maior polémica talvez seja o direito de cultivar em casa, porque muitos não concordam. Mas, no Parlamento, partidos de direita e partidos de esquerda todos concordam em legalizar, só que muitos não querem o auto-cultivo. Acho que é um bom primeiro passo, mas como é que vê o mercado português e o que pode acontecer nos próximos anos?
Acho que o modelo de acesso vai ser bem interessante. Não sei se vão permitir online, acho que ainda vai ser controlado pelo dispensário. Também acho que haverá muitas marcas norte-americanas a entrar e a tentar estabelecer a sua marca, que agora há oficialmente na Europa, como cookies, etc. O licenciamento de dispensários é bastante interessante e haverá procura em torno de possuir um dispensário. Então, eles vão tornar-se num activo excepcionalmente valioso. Já há pessoas a fazer apostas com dispensários, mas não quero estar muito confiante, acho que provavelmente ainda é um pouco cedo para fazer uma aposta em torno de “você vai conseguir isso” ou “a sua instalação ou local vai ser licenciado”… Acho que Portugal vai ter o influxo de marcas norte-americanas, porque elas serão uma das primeiras na Europa, e as marcas norte-americanas vão querer demonstrar isso… porque, sabe, eles podem exportar um genérico, eles podem exportar o IP deles, até certo ponto, não obviamente o material, mas eles vão ter as suas marcas em Portugal. Já conheço um número que está em Portugal à espera que isso aconteça. Como ponto de entrada, ele vai construir relacionamentos entre os EUA… mas o que também é interessante é, se eles começarem a permitir a importação internacional, isso é algo que ainda não foi respondido. Porque, bem, quando você tem 84 produtores em GACP, para que é que precisa importar? Certamente pode importar produtos acabados, pode importar comestíveis, pode importar bebidas… mas sim, há canábis suficiente a ser cultivada em Portugal. Há canábis suficiente a ser cultivada em Portugal, que poderia abastecer toda a Europa, quanto mais Portugal. Portugal já tem excesso de produção e excesso de capacidade. É só ir a um armazém GMP de canábis em Portugal e vê flores empilhadas em caixas, armazenadas e empilhadas. Já existe excesso de oferta em Portugal.

“Há canábis suficiente a ser cultivada em Portugal, que poderia abastecer toda a Europa. Já há excesso de oferta em Portugal”

E para quando uma Cannabis Europa em Portugal? Já pensou sobre isso?
Já existe um evento fantástico em Portugal, sou honesto, talvez em colaboração, quem sabe? Se precisar ser usado como capital para a mudança, então absolutamente.

Sabe que, quando você faz as coisas no seu próprio país, é mais difícil que elas sejam reconhecidas. Se alguém vem de fora e faz as coisas, então você está a levar realmente as coisas para a frente…
Talvez por ser irlandês, acabo por fazer as coisas no Reino Unido, é diferente. Na verdade, temos muitos irlandeses na nossa empresa.

Ficaria muito feliz a vê-lo fazer coisas em Portugal também, por isso é muito bem-vindo, a qualquer momento. E agradeço também esta entrevista.
Obrigado, muito obrigado!

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