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Entrevistas

Vasco Gil Calado: “Fumar canábis evitava o descontrolo, num cenário que convidava ao desespero e ao colapso”

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Foto: D.R.

Em 2021 Vasco Gil Calado, antropólogo e investigador do SICAD, publicou o livro “ Drogas em combate, A Guerra Colonial”, resultado de uma profunda investigação para o seu Doutoramento em Antropologia. Em Portugal, praticamente todos aqueles que cumpriram o serviço militar na guerra colonial sabem que “liamba” é o mesmo que canábis, que hoje em dia se torna uma palavra cada vez mais recorrente na opinião pública e nos Media. Mas será que os que a conhecem a utilizaram? Igualmente, já é aceite que a chegada da liamba, ou erva, ao território português se deu com o fluxo dos retornados após a independência das ex-colónias. Mas será que foi mesmo assim?

Cruzando fontes históricas e depoimentos de ex-militares portugueses envolvidos na Guerra Colonial Portuguesa, Vasco Gil Calado, investigador na área dos Comportamentos Aditivos desde 2001, consegue uma síntese perfeita entre rigor científico e capacidade de comunicação para o grande público.

Um tema inédito, difícil de abordar, marcado por silêncios incómodos, mas aqui tratado sem generalizações gratuitas, sem julgamentos morais e num tom profundamente humano.

Este é um livro pioneiro e original que, a partir do tema do consumo de substâncias psicoactivas, como a canábis e o álcool, no contexto da Guerra Colonial, encerra em si uma homenagem aos militares portugueses e respectivas famílias, que se viram envolvidos no conflito. Uma homenagem à sua dor e solidão, mas principalmente à coragem e ao seu apego à vida.

Através da matéria viva da história, as pessoas, embarcamos numa viagem ao inferno da guerra, da agonia dos seus infinitos momentos de vazio e de espera pelas tensões do combate. Pelo caminho, atravessamos também os sinais evidentes de uma contracultura portuguesa que anunciava o desejo de paz, liberdade e esperança.

Falámos com o autor Vasco Gil Calado a propósito do lançamento do seu novo livro e satisfizemos algumas das nossas curiosidades sobre o tema das drogas na guerra.

Porque é que a canábis é deixada de fora da história oficial da guerra colonial, quando sabemos que a liamba, como era conhecida em Angola, ou suruma, em Moçambique, não era um assunto desconhecido de muitos soldados e até mesmo da PIDE e das chefias militares?
É preciso perceber que, para o impacto que teve na sociedade portuguesa, a Guerra Colonial tem sido muito pouco estudada, seja de que perspectiva for. Houve, durante muito tempo, uma espécie de «conspiração de silêncio», em que não interessava a ninguém que o assunto fosse debatido ou estudado. Mais recentemente, as coisas alteraram-se um pouco, embora o estudo se tenha centrado sobretudo em aspectos militares e também na questão da memória e da dimensão traumática, deixando pouco espaço para outros tópicos. A história social dos combatentes (a dimensão da vivência) está praticamente toda por fazer, incluindo o estudo de tudo o que possa ser considerado mais delicado e polémico. Aqui inclui-se a questão das drogas, mas também a homossexualidade, a prostituição e todo o tipo de abusos que tiveram lugar na guerra, por exemplo. Como todas estas práticas foram silenciadas e muito pouco documentadas, o seu estudo é particularmente complexo e assenta necessariamente em depoimentos e registos biográficos, o que torna o processo de pesquisa mais demorado e sinuoso. O que torna a questão da canábis um assunto delicado e convida ao silêncio é o peso que a questão das drogas tem hoje, nomeadamente a nível simbólico, apesar de na altura os militares que consumiam canábis não terem noção do interdito, muito menos de estar a praticar algo ilícito.

Em traços gerais, o que procuravam os soldados portugueses com a utilização de canábis, numa época em que simultaneamente decorria a  Guerra do Vietname, que acabamos por conhecer bem melhor através de filmes como o “Platoon”, de Oliver Stone, onde vemos os soldados americanos a fumar no dia-a-dia e em ambiente chill-out, na célebre cena onde o grupo do sargento Elias “baptiza” o soldado Taylor. Quem eram estes soldados portugueses? O seu consumo de canábis manteve-se na vida civil, após o fim da guerra?
Com base na informação que reuni, a partir de entrevistas mas não só, concluí que os militares portugueses que fumaram canábis durante a Guerra Colonial o fizeram sobretudo numa lógica de auto-medicação, isto é, como uma forma de controlar o medo e diminuir a tensão emocional. Fumar canábis visava evitar o descontrolo, num cenário que convidava ao desespero e ao colapso. Ao que tudo indica, o consumo de canábis foi uma prática que, já na fase final do conflito, perto do início da década de 70, se foi tornando mais comum nos aquartelamentos portugueses, nomeadamente entre os soldados de incorporação local (isto é, nascidos em África) mas também entre militares graduados (alferes e furriéis) vindos da então metrópole. É difícil traçar um perfil do militar que consumia canábis na Guerra Colonial, mas diria que se tratava, sobretudo, de indivíduos cuja vinculação à causa militar era menor, sendo que o consumo tendia a ser maior onde a situação era mais difícil (tanto do ponto de vista militar como em termos de isolamento). Por se tratar de um consumo vincadamente «terapêutico», muito associado à pressão inerente de um cenário de guerra, tudo indica que a maior parte dos militares que consumiram canábis na guerra abandonou o consumo quando regressou a casa. Aliás, o mesmo aconteceu na Guerra do Vietname, fenómeno que sustentou empiricamente novas perspectivas teóricas acerca do uso de drogas, nomeadamente a famosa teoria do drug, set and setting.

Vasco Gil Calado, autor do livro “Drogas em Combate” – Foto: D.R.

É legítimo afirmar que a canábis nos territórios africanos, durante o conflito, consoante o lado da guerra, funcionava simultaneamente ora como uma substância associada ao lazer e tentativa de alienação dos soldados portugueses, ora como do lado dos guerrilheiros dos movimentos de libertação se transformava num “alimento”, para acalmar a fome, para aumentar a resistência e para aumentar a agressividade? Ou esta era a versão oficial das autoridades portuguesas?
Devo realçar que, por limitações de tempo e recursos, não entrevistei antigos militares dos movimentos de libertação, pelo que me cinjo à perspectiva portuguesa. O que sei é que, logo em 1961, quando a guerra se inicia, o consumo de canábis é visto como algo que justifica a violência dos «indígenas» face ao poder colonial e serve de explicação para actos considerados «bárbaros», nomeadamente os primeiros massacres da UPA. Tal vem, aliás, no seguimento de uma velha tradição europeia de olhar para o consumo de canábis como algo pernicioso, que torna os africanos, em geral, e os escravos, em particular, mais violentos e imprestáveis para trabalhar. Nesse sentido, o seu consumo foi sempre mal visto pelo poder colonial europeu e, por vezes, até expressamente proibido. É essa a visão que predomina na altura em que os primeiros portugueses vão combater para África. No entanto, com o decorrer do conflito, alguns militares tomam contacto com a planta, experimentam-na, aprendem a consumi-la e a valorizar os seus efeitos «ansiolíticos», particularmente úteis naquele contexto tão desafiador. E tomam contacto com a canábis através dos militares africanos (nomeadamente negros) incorporados nas fileiras do exército português, que já conheciam a planta e o seu potencial psicoactivo, dado o consumo ser uma prática secular em determinadas regiões de Angola e Moçambique. Em suma, se os militares africanos que lutavam ao lado dos portugueses fumavam canábis como forma de relaxar e em momentos de pausa, não faz sentido que os militares africanos que pertenciam aos movimentos de libertação o fizessem para aumentar a agressividade.

Segundo o seu estudo, a canábis africana chega à Metrópole, na terminologia de então,  claramente antes do 25 de Abril, através dos militares em trânsito. Portugal, que até então tinha uma postura branda relativamente às drogas, a partir dos anos 70 adere ao paradigma penalizador. Foi este afluxo que esteve na base da lei das drogas de 1970, que integra um princípio proibicionista, e se materializou, por exemplo, na  célebre campanha Marcelista intitulada “Droga, loucura e morte”?
Não me parece, até porque provavelmente não foram assim tantos os militares portugueses que regressaram com canábis na bagagem, especificamente com a ideia de a comercializar. E estamos, certamente, a falar de pequenas quantidades, nada que ver com o fenómeno que, a partir de 1975, se irá assistir com a chegada dos «retornados». Ainda que alguns militares tenham contribuído para criar um mercado de drogas, tudo indica que se tratava de algo ainda muito embrionário, de pequeníssima escala. A preocupação que, no início da década de 70, as autoridades nacionais demonstram com as drogas parece mais uma importação do exterior do que uma resposta a um fenómeno com real expressão na sociedade portuguesa. Analisando os primeiros debates parlamentares que tiveram lugar na então Assembleia Nacional fica muito claro que a referência às drogas está relacionada com a ameaça que o «establishment» atribui a algumas substâncias, nomeadamente a capacidade de «desencaminhar» os jovens, algo que viam acontecer nos EUA e em alguns países europeus. Não é por acaso que algumas dessas figuras nacionais que se destacam nesses debates eram deputados que tinham passado por organismos internacionais. A relação com a Guerra Colonial é que, tal como aconteceu nos EUA, as autoridades receavam que, de alguma maneira, com a ajuda das drogas, a «contracultura» acabasse por fazer com que os jovens se revoltassem contra o «sistema» e recusassem combater em Angola, Moçambique e Guiné, no caso nacional, e no Vietname, no caso norte-americano.

Esta entrevista foi originalmente publicada no #2 da Cannadouro Magazine.

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*Vasco Gil Calado é antropólogo e investigador no Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), trabalhando na área dos comportamentos aditivos desde 2001. Doutorado em Antropologia e pós-graduado em Sociologia da Saúde e em Ciências Sociais, é autor e co-autor de diversos relatórios técnicos e dossiers temáticos.

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