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Fátima Carvalho: “Do ponto de vista analítico, a canábis é uma matriz particularmente complexa e desafiante”

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Fátima Godinho Carvalho, directora executiva do LEF – Laboratório de Estudos Farmacêuticos desde 2018, afirma que “do ponto de vista analítico, a canábis é uma matriz particularmente complexa e desafiante, especialmente quando comparada com entidades químicas de origem sintética”. A trabalhar no sector da canábis desde 2014, altura em que a primeira empresa de canábis, a Terra Verde, se instalou em Portugal, Fátima passou pela MSD e pela Iberfar, antes de ingressar no LEF – INFOSAÚDE, em 2006.

Com mais de 25 anos de experiência na indústria farmacêutica, essencialmente em cargos de garantia e Controlo de Qualidade, Fátima é Mestre em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e tem uma pós-graduação em Gestão pela Católica Lisbon School of Business & Economics.

Além de ser formadora certificada e ter estado envolvida em várias actividades educativas, nomeadamente mestrados e pós-graduações, Fátima Godinho é também co-organizadora da conferência Medical Cannabis Europe, que se realiza esta quinta e sexta-feira na Associação Nacional de Farmácias, em Lisboa. No ano passado, Fátima escreveu uma crónica sobre o estado da arte da canábis em Portugal, em parceria com Aldo Vidinha, com quem co-organiza a segunda edição desta conferência.

O evento já está esgotado e as inscrições encontram-se fechadas. Falámos com Fátima Godinho para conhecer melhor o seu percurso profissional e o que tem feito no sector da canábis em Portugal.

Desde quando trabalha na indústria farmacêutica e o que faz exactamente?
Iniciei a minha carreira em 1993, como supervisora do laboratório de Microbiologia da MSD. Já no Grupo Iberfar, na então já extinta CFP, (Companhia Farmacêutica Portuguesa) integrei a gestão das equipas de Controlo de Qualidade FQ e Microbiológico e, em 2002, acumulei a direcção do Controlo de Qualidade do Iberfar, SA., com a de deputy da direcção Técnica. Em 2006 juntei-me à equipa do LEF, como responsável do departamento de Qualidade, em 2014 assumi a direcção Técnica e em 2018 a direcção executiva do LEF.

Como e quando surgiu a canábis no seu percurso profissional?
Em 2014 o LEF teve o seu primeiro projecto nesta área. Colaborámos num projecto inovador, que envolvia a Terra Verde e a GW Pharmaceuticals, apoiando-os quer ao nível da consultoria em Qualidade, quer através da realização do Controlo Analítico. Desde então, o LEF tem vindo a ter uma participação muito relevante neste âmbito, de forma absolutamente transversal no ciclo deste produto, desde a consultoria de qualidade, regulamentar e área analítica, entre tantas outras.

Na altura em que começou a trabalhar com canábis, o que sabia sobre a planta? Já conhecia alguma da pesquisa relativa à canábis ou surpreendeu-a que pudesse ter também uma vertente medicinal?
Até 2014, o conhecimento sobre as potencialidades terapêuticas desta planta era relativamente pequeno. No entanto, no âmbito das parcerias internacionais estabelecidas no seio do grupo ANF, já tinha conhecimento de que, em países como o Canadá e alguns estados mais liberais dos Estados Unidos, a utilização desta planta para fins medicinais estava em franco crescimento, pelo que era expectável que este tipo de abordagem terapêutica acabasse por chegar à Europa. Por conseguinte, iniciámos o aprofundamento do conhecimento que hoje replicamos junto dos nossos clientes e parceiros, no sentido de acrescentar valor à cadeia.

Tendo em conta que a sua formação e experiência foram, essencialmente, em farmácia convencional, que principais diferenças e desafios tem encontrado ao trabalhar com canábis?
Do ponto de vista analítico, a canábis é uma matriz particularmente complexa e desafiante, especialmente quando comparada com entidades químicas de origem sintética. Contém mais de 550 compostos com potencial efeito terapêutico, dos quais mais de 150 foram identificados como canabinóides. Por outro lado, os enquadramentos regulamentares de vários países da Europa têm diferentes requisitos, o que implica que as empresas têm que ter uma boa capacidade de adaptação às exigentes e constantes alterações impostas pelas autoridades de saúde e pelos seus potenciais clientes.

Desde 2019, o LEF obteve do Infarmed três autorizações diferentes de fabrico relacionadas com canábis. Que trabalho específico têm desenvolvido nesta área e quem são os seus principais clientes?
O LEF, como CRO / CMO com 30 anos de experiência, tem a capacidade de oferecer às empresas do sector da canábis medicinal uma solução one-stop shop. Temos uma variedade de serviços que incluem o desenvolvimento de formulações e produção de lotes experimentais à escala piloto, o apoio na preparação da documentação técnica necessária para a apresentação do pedido de AIM ou ACM, consultoria em qualidade no âmbito da obtenção das licenças de cultivo e/ou fabrico, desenvolvimento de programas de qualificação e validação, formação e auditorias. Por outro lado, o LEF é a referência nacional na área analítica, no desenvolvimento e validação de métodos, no controlo de qualidade, na execução de estudos de estabilidade e no apoio às actividades de cultivo e fabrico, como a monitorização ambiental, análise de águas, etc. Trabalhamos com a generalidade das empresas portuguesas que operam neste sector e colaboramos com vários operadores internacionais, que encontram no LEF um prestador de serviços com certificação GMP, que lhes permite entrar no mercado europeu.

Se olharmos para o regulador, para as empresas da indústria e para os pacientes que recorrem à canábis com fins medicinais, encontramos perspectivas ou opiniões bastante díspares. Como é que analisa a situação actual da canábis medicinal em Portugal e na Europa?
O mercado da canábis para fins medicinais será o principal impulsionador de crescimento do mercado europeu, uma vez que a decisão de liberalizar a utilização para fins recreativos não é consensual e, porventura, polémica em muitos países. Algumas fontes do sector apontam para uma previsão de um crescimento sustentável e uma valorização do mercado na ordem dos 3 mil milhões de euros em 2025. Contudo, é expectável que os operadores desta indústria tenham de se preparar para enfrentar alguns desafios, como um quadro regulador dinâmico e com exigências cada vez maiores, a necessidade de capacitação do sistema de saúde, nomeadamente investir em mais informação, formação e qualificação dos profissionais de saúde. Será prioritário promover a melhoria do acesso aos produtos de canábis medicinal e a necessidade de monitorizar os resultados em saúde e promover a farmacovigilância decorrente do aumento da sua utilização.

A maioria dos países está a preparar-se para regulamentar o uso adulto de canábis e já se percebeu que “a canábis vende”. Em Portugal já existem mais de 100 lojas de canábis e nos supermercados é cada vez mais comum encontrar vários produtos com canábis, essencialmente cosméticos. Qual é a sua opinião sobre a legalização total do uso desta planta?
O meu papel e o do LEF estão focados exclusivamente no alcance e impacto medicinal da utilização desta planta.

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